06 outubro, 2009

ESPAÇO PÚBLICO E ESPAÇO PRIVADO




Larry Siedentop, professor de Filosofia Política em Oxford, num livro chamado "Democracy in Europe", afirma que ainda há meio-século a palavra democracia era desconhecida de quase todo o mundo não-ocidental. E que mesmo no ocidente, há 200 anos, era uma palavra com fortes conotações negativas, com um estatuto não muito diferente do obscuro e fantasmagórico id freudiano.
Num dos capítulos do livro (The Dilemma of Modern Democracy), Siedentop estabelece uma distinção entre governo democrático e sociedade democrática. No fundo, a diferença entre uma democracia mais pública, onde o homem vive fundamentalmente como cidadão e na qual os procedimentos formais da democracia são respeitados e, por outro lado, uma democracia na qual o indivíduo assume mais o seu espaço doméstico e pessoal. Para o fazer, dá-nos o exemplo de O Juramento dos Horácios de Jacques-Louis David e da pintura holandesa.
Enquanto no primeiro, encontramos um mundo completamente concentrado num espaço público, o espaço da cidadania no qual está ausente uma vivência doméstica, no segundo (De Hooch, neste caso), por sua vez, deparamos com todo o esplendor da vida doméstica, da cumplicidade doméstica, da intimidade doméstica. Uma vivência toda ela virada para dentro, introspectiva, ao contrário da anterior, toda ela virada para o exterior e com uma visibilidade da qual está ausente qualquer penumbra e segredo.
Diz Siedentop que a democracia moderna tem de encontrar o equilíbrio entre estes dois tipos de pinturas. Concordo. E acrescento a ideia de que as actuais sociedades democráticas têm dado sinais preocupantes relativamente à serenidade, silêncio, intimidade, tempo e liberdade que tanto nos fascinam nos quadros de Vermeer e de De Hooch.

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