11 outubro, 2009

ESCURIDÃO DEMOCRÁTICA

Antes de mim, na mesa de voto, estava um rapaz do meu tempo de escola que sofre de uma grave perturbação psiquiátrica, para além de problemas de alcoolismo. Os meus votos e os dele ficaram, por isso, bem juntinhos dentro da urna. E, quando chegar o momento de os contar, os votos dele irão valer tanto quanto os meus.
Eu não acredito na igualdade entres seres humanos. Se amanhã, às oito da manhã, acordássemos todos iguais, às oito da noite já voltaríamos a ser de novo todos diferentes. Mas, como ser humano, como cidadão, como ser racional que deseja viver numa sociedade que apresente um mínimo de racionalidade, senti-me orgulhoso por viver numa época histórica na qual, graças à escuridão democrática da urna, os votos de pessoas completamente diferentes se transformam em votos de pessoas completamente iguais.

6 comentários:

Austeriana disse...

O tédio que seria se fossemos todos iguais...
Dou-lhe os parabéns pela forma como coloca a questão da igualdade face à urna. Ela acaba por traduzir o essencial da democracia.

José Ricardo Costa disse...

Austeriana, obrigado embora não seja caso para tanto!
JR

Logros disse...

Não acredito que v. não siba, que os requesitos da igualdade são "ab initio":
-não nascer de uma mãe famélica, espancada, analfabeta,dependente, etc. Porque tudo começa aí. NA IGUALDADE DE OPORTUNIDADES controláveis. Bem bastam as maleitas genéticas, que às vezes,sem saber, transportamos.
E quanto aps psicóticos, desde que não sejam inimputáveis, acho muito bem que votem. Até porque há muitos na cena política e por todo o lado.

Saudações.
I.

José Ricardo Costa disse...

Sim, mas uma coisas são os requisitos, outra coisa o mundo real. Esta situação, ao contrário dos requisitos formais, sejam constitucionais,sejam filosóficos, existiu mesmo, foi bem real.

JR

Logros disse...

Você chutou para canto.
As desigualdades mais obscenas, à partida, são a coisa mais REAL, que existe. Como deve saber, foi para as atenuar que se inventaram "Declatações Universais", "Constituições", etc
Em que mundo é que vive?

Inté.

I.

José Ricardo Costa disse...

E eu a pensar que tinha acabado de marcar um penalty.
Eu sei que existem declarações, constituições e outras coisas acabadas em ões. Mas são muitas vezes puras formalidades. Por exemplo, o direito à educação. É um direito universal, nomeadamente em Portugal. Só que as crianças mais desfavorecidas irão continuar desfavorecidas. Enquanto aquele rapaz que estava a votar se encontrava numa posição de total igualdade.

JR