26 outubro, 2009

AVALIAÇÃO FATAL

Sou professor, certo? E, enquanto professor, é normal e legítimo que o problema da avaliação dos professores me interesse bastante, certo?
Posto isto, permitam-me agora dizer o seguinte: já não suporto ouvir falar na avaliação dos professores. Estou farto. Pronto, estou farto.
Há dias, ao fazerem-se as previsões das dificuldades que a nova ministra iria encontrar, do que se falou? Da avaliação dos professores. Quando se fala de escola, de educação, do ensino, do que se fala? Da avaliação dos professores. Parece que o ensino em Portugal se esgota na avaliação dos professores.
Ora, a avaliação dos professores não é uma questão nacional mas corporativa. Os trabalhadores dos CTT, da EDP, dos bancos, das câmaras e dos hipermercados têm os seus problemas. Os professores têm os seus. Cada um que fique com os seus.
Mas o que ainda me faz mais comichão é o facto de serem os próprios professores a atear a fogueira. Parece que também para os professores o problema do ensino se esgota na sua avaliação. Ora, chega, basta, kaput.
Pelo amor de Deus, comecem de uma vez por todas a falar da crise gravíssima por que passa a educação em Portugal. Do facto de estarmos a hipotecar gravemente a formação de milhares de jovens a quem a escola não dá o que moralmente deveria ser obrigada a dar. De andarmos a enganar os pais. De andarmos a encher o bandulho com disciplinas absolutamente inúteis. De existir um sucesso absolutamente artificial. Da indisciplina. Do eduquês. Do social-carneirismo sociológico que rouba a cada professor o que este tem de melhor. Da total ausência da componente científica na formação dos professores.
É disto, sim, que deveriam falar os professores para que a sociedade civil ganhe consciência dos verdadeiros problemas da escola portuguesa. E deixar a avaliação para as salas de professores.

10 comentários:

Fred disse...

Meu amigo, só posso aplaudir, porque de facto tudo o que disse foi bem dito! A realidade é mesmo essa.

Um abraço.

estela disse...

:)

boa!

Ega disse...

Não sou professor, mas subscrevo integralmente o que aqui escreve.

Ainda hoje vinha no carro a pensar nas reformas do anterior governo. E na educação pensei, claro está, na da avaliação dos professores. Porém, depois de pensar um bocado, conclui que nem isso é, porque trata-se de uma reforma que passa apenas pela rama da árvore. O que faz falta é abalar toda fundação/raízes do sistema educativo.

Urge, de facto, repensar tudo isto. Continuo a defender que qualquer sistema de ensino civilizado deverá estar centrado no fortalecimento do carácter das crianças e formação de cidadãos livres. Não sei como isso se faria, mas certamente teriam de cair a maior parte das disciplinas que hoje em dia se dão no ensino básico.

Cumprimentos

addiragram disse...

Na saúde é o mesmo. É mesmo fatal seguir esse trilho.

Alice N. disse...

Totalmente de acordo.

Margarida disse...

Se bem sentido, melhor exposto.

lira disse...

Nem mais! Martelar sempre na mesma tecla acaba por distrair para o que realmente interessa...

draaninhas disse...

Partilho deste sentimento de enfado cada vez que oiço falar na avaliação de professores. Ninguém aguenta! Mas confesso que também me irrita um pouco a instrumentalização sindical da questão, muito conveniente a algumas pessoas. E há tanto a mudar no nosso sistema de ensino que é um crime esta distração... fatal.

JCM disse...

Estive para não escrever sobre este post. Também a mim me enfada a questão da avaliação de profs. Só que ela é muito mais importante para os alunos e para o país do que para os professores.

A avaliação de professores tem uma finalidade que não é avaliar os professores, mas assegurar um modelo de professor para os alunos. E assegurar um tipo de "ensino" para esses mesmos alunos. É isto que invalida por completo o desabafo do Zé.

A avaliação de professores, contrariamente ao que é dito, não é uma questão corporativa. Também é, mas acessoriamente. A avaliação de professores tem a finalidade de assegurar isto: O «facto de estarmos a hipotecar gravemente a formação de milhares de jovens a quem a escola não dá o que moralmente deveria ser obrigada a dar. De andarmos a enganar os pais. De andarmos a encher o bandulho com disciplinas absolutamente inúteis. De existir um sucesso absolutamente artificial. Da indisciplina. Do eduquês. Do social-carneirismo sociológico que rouba a cada professor o que este tem de melhor.»

Esta avaliação de professores é um instrumento terrível contra os alunos que querem uma escola decente e exigente, uma escola centrada no saber e não em actividades de recreio na sala de aula, pois obriga os professores a comportarem-se segundo a ideologia do eduquês que dá forma à avaliação, concentra-os em tarefas irrelevantes, valoriza o acessório.

Se ela persistir, veremos como as coisas estarão bem piores daqui a uns anos. Os grandes prejudicados com a avaliação de professores não são os professores. São os alunos, e é o futuro do país.

Eu percebo o lamento, mas o conteúdo dele é absolutamente ao lado da realidade. Enquanto este modelo de avaliação, ou outro de conteúdo semelhante, estiver em vigor, nunca é demais a sua contestação pública. Ele é um obstáculo enorme a uma escola de qualidade. Há outros, mas este toca no essencial, toca na liberdade de ensinar.

José Ricardo Costa disse...

Jorge, claro que tens razão. A avaliação dos professores só faz sentido num quadro mais global que interessa, naturalmente, aos pais e aos alunos. E, neste sentido, está, de facto, longe de poder ser uma questão meramente corporativa.
Mas o que tu acabaste, e bem, de comentar, não é o que passa para a opinião pública. O que passa é o lado meramente corporativo, sindical, digamos que egoísta, do problema. Do professor enquanto professor, tal como existe a avaliação do aluno enquanto aluno. E foi contra isso que eu me manifestei, enquanto problema aparentemente autónomo e isolado. Obviamente que, se passarmos a valorizar na escola o que na verdade deve ser valorizado, o resto vem por inerente acréscimo.

JR