10 outubro, 2009

ARISTÓTELES - 1 PLATÃO -0


J.L Austin escreveu um célebre ensaio chamado "How To Do Things with Words". E chama-se assim precisamente porque praticamos acções com as palavras. Por exemplo, prometer ou jurar são formas de agir. O "sim" dos noivos é uma acção. Se não dissessem "sim" o casamento não seria consumado. Ou seja, o acto de dizer possibilita o casamento do mesmo modo que o acto de meter gasolina possibilita o funcionamento do automóvel.
Mas não são apenas as palavras que permitem fazer coisas. Fazer coisas também pode ser uma forma de as dizer.
Veja-se esta história do abraço entre Santana e Carmona. O primeiro tinha informado publicamente que o segundo, por razões profissionais, não poderia ir de manhã à arruada no Chiado mas que "podia transmitir o abraço pessoal". Ou seja, "fazer uma coisa com as palavras". Também quando num mail nos despedimos com um abraço ou um beijo estamos a sugerir um abraço ou um beijo.
Acontece, porém que, à tarde, na arruada da Av. da Igreja, Carmona foi mesmo dar um abraço com os braços a Santana, tendo este então dito aos jornalistas que não tinha mentido ao divulgar o abraço do primeiro. E a partir do momento em que Carmona tinha enviado o abraço a Santana e este o tinha publicamente divulgado, o abraço já estava mais do que dado.
Ainda assim, Carmona sentiu a necessidade de o ir dar fisicamente, materialmente, visualmente, gestualmente, publicamente, ritualmente. Há aqui um excesso de advérbios mas é pedagógico para o que pretendo dizer.
Este abraço faz ainda parte de um mundo, milenar, no qual o corpo é usado publicamente para transmitir sinais, para tomar decisões, para manifestar emoções, para consumar actos formais (e não físicos, como martelar, cozinhar, conduzir, cavar, semear, escrever).
O imperador romano, no circo, tomava decisões com a mão. Na Idade Média, ser armado cavaleiro ou, séculos mais tarde, entrar na maçonaria, implica o uso de uma gramática corporal, apesar de não serem actos físicos. Para já não falar no modo como o olhar, o sorriso, os gestos, a posição das pernas poderão querer dizer muitas coisas.
Ora, acontece que em virtude do desenvolvimento tecnológico e de uma comunicação cada vez mais à distância, o corpo tem vindo a perder importância enquanto estrutura gramatical. Veja-se, por exemplo, o uso do "lol". O "lol" é um forma de exprimir riso perante alguém que não nos está a ver. Mas não é apenas a distância. Há também um sentido de funcionalização que acabou por substituir o sentido simbólico e ritual dos actos. Compare-se um casal que vai ao registo para casar com aquele que o faz na igreja. Na igreja, tem que se treinar o corpo uns dias antes: o modo como a noiva entra de braço dado com o pai, o ritmo do andar, a pose perante o padre, o beijo, a saída. O próprio acto sexual tornava-se público a partir do momento em que havia mães das noivas que exibiam à janela o lençol sujo de sangue.
É por isso que este abraço físico de Carmona depois de ter já sido dado verbalmente, se reveste de enorme significado. E não se trata apenas de publicidade. A publicidade já tinha sido realizada a partir do momento em que se tornou público. Com as palavras, o país, Lisboa, já sabiam que Carmona apoiava pessoalmente Santana.
Este abraço revela ainda um mundo de corpos e não de fantasmas. Um mundo real em vez de um mundo virtual. Revela o mundo de Aristóteles, no qual o corpo é parte integrante do homem, em que o homem é também o seu corpo, ao contrário do mundo de Platão em que o corpo é um mero e incómodo acidente que temos que provisoriamente suportar.

5 comentários:

Margarida Graça disse...

Às vezes hesito entre o clicar ou não neste lugar, pensando no tempo precioso que me resta para fazer coisas que valham a pena... E... muitas vezes o meu dedo é mais rápido e zás: lá estou eu concentrada entre a perplexidade e o riso. Depois, saio daqui banzada...

Logros disse...

Interessante.
Mas gostava de lhe pôr uma questão.
Antes de mais, embora não seja a minha área de estudos, comungo da simpatia aristotélica. Talvez por um antigo ressentimento contra o autor de "A República", que preconizava a expulsão dos poetas, da mesma. Além de que a "Poética" de Aristóteles, que era de leitura obrigatória, no meu tempo, nos cursos de Estudos Litertários, é a inaugural "Arte Poética" da Civilização Ocidental.

Agora, entrando na simbologia e na semiose do virtual/concreto, ou do fantasmátuco/real ou ainda do ideal/corporal, pergunto:
Não acha que desde sempre, mesmo muito antes das novas tecnologias, o fantasmático, o idealizável, como contrapartida indossolúvel do real, está sempre presente e válido enquanto tal?

Dou como exemplo, as fantasias sexuais ou até homicidas, que felizmente o super-ego de muito boa gente, lhe impede de concretizar. Digamos que a sua função é mesmo essa: permanecerem na sombra, n«ao corporizadas, mas integrantes do enorme continente da mente humana.
Suponho que as ementas políticas que refere, provêm de outras áreas,nais pragmáticas.
De qualquer forma é sempre agradável verificar um esforço de elevação analítica nestes negócios.

Só uma achega sobre a exibição pública do lençol dos nubentes: destinava-se principalmente a provar a virgindade da noiva e concomitante honra da família.Ao que julgo saber, ainda se pratica hoje, em algumas culturas islâmicas.

Saudações.

I.

José Ricardo Costa disse...

Cara Logros,

Claro que sim. O ideal, o mítico, o imaginário, a fantasia, o ideal acompanham-nos desde sempre. Não são uma criação da modernidade.

Mas não é sobre isso que falo no post. Refiro-me apenas ao facto de a tecnologia ter induzido modos virtuais de comportamento e de linguagem que, outrora, envolviam directamente o corpo. Por exemplo, neste momento estou a comunicar consigo e não faz ideia do que tenho vestido, se estou a comer de boca aberta enquanto escrevo, se estou ou não a bocejar, se rio ou estou sério. E quando terminar este comentário ir-lhe-ei dar os meus cumprimentos, enquanto se estivéssemos a conversar no café daríamos um aperto de mão certamente acompanhado de um sorriso. Por outro lado, uma concepção mais pragmática e funcional das relações humanas e dos actos levou a uma perda de importância do corpo enquanto código cujos signos são diferentes dos signos linguísticos. Ganhou-se em simplicidade o que se perdeu em simbolismo.

Cumprimentos(lol)

JR

Logros disse...

Ricardo,

Por um lado, não apertarmos as mãos é muito melhor, por causa da gripe A :))))
Depois, nem imagina o que a minha geração fez, sofreu e se bateu, até ao enjoo, pela "libertação do corpo", pelas "máquinas desejantes", vindos da miséria censória, mais sinistra.

Entendo-o. Mas acho sinceramente, que se ganhou muito mais do que o que se perdeu.

Pessoalmente, gosto da "paz da natureza sem gente". Digo-lhe que conheci pessoalmente alguns grandes intelectuais e poetas portugueses. E que os seus textos eram incomparavelmente superiores à sua identidade civil.
"O prazer do texto" é frequentemente superior a uma entidade narcísica,pequenina, timorata, sem fulgor,invejosa, com fobias, etc, que é o autor do texto, do quadro, da música...

Se não fosse a Net, o nosso amigo JA, jamais eu estaria a trocar estas ideias consigo.

Abraço
(corpóreo ou incorpóreo)
Como achar melhor.

Inês Lourenço

Austeriana disse...

Excelente post.
Os senhores não se enxergam mesmo e não me parece que estes comportamentos tenham sido induzidos. Aquilo de querer fazer dos outros parvos está mesmo na "massa do sangue". Foi assim que aprenderam a ganhar a vida e o que me entristece é que continuam a querer ganhá-la assim e vão conseguindo.