17 setembro, 2009

A VELA


"Uma mulher lavava a roupa, e pelo frio tinha os pés muito vermelhos; e passando por ela um padre, perguntou com admiração o que causava tal vermelhidão; ao que a mulher respondeu logo que tal efeito acontecia porque ela tinha debaixo dela um fogo. Então o padre segurou o membro que o fez ser padre e não freira e, encostando-se a ela, com doce e persuasiva voz, pediu-lhe que fizesse o favor de lhe acender aquela vela".

Esta anedota é bastante ordinária. Imagino bem o Camilo de Oliveira, o Badaró ou o Eugénio Salvador, a contá-la nos velhos tempos do Parque Mayer perante um público ávido de histórias picantes. A anedota até tem a sua graça, graças ao jogo de analogias que resulta muito bem. Mas, para todos os efeitos, é uma anedota ordinária.

Acontece que esta anedota é retirada de um dos códices de Leonardo da Vinci. Mais concretamente, o Códice Atlântico, que se encontra na Biblioteca Ambrosiana de Milão. Ora, assim sendo, o cenário muda de figura. O facto de ter uma proveniência erudita e de se tratar de um texto com mais de 500 anos, muda radicalmente a nossa relação com ele. Mais até do que a pessoa é o tempo que muda a nossa relação com o texto, tal como acontece também, por exemplo, com os textos latinos de Petrónio ou de Marcial.

Uma anedota ordinária ou um texto ordinário com 500 ou 1000 anos deixam de ser uma anedota ordinária ou um texto ordinário para passarem a ser um objecto histórico, erudito e culturalmente relevante. Como se o tempo fosse um antídoto que libertasse o texto da sua mácula original. O tempo é, de facto, um grande escultor. Sem mãos, sem dedos, sem músculos, sem ossos, consegue transformar um objecto moralmente desprezível numa cândida e encantadora preciosidade.

3 comentários:

addiragram disse...

Torna-se talvez uma relíquia.

Mafalda disse...

Realmente o tempo faz milagres. Como os gregos ensinarem aos seus discíplos tudo o que sabiam, incluindo o praticar do "amor". Hoje em dia, seriam vítimas de acusações de pedofilia, homossexualidade e coisas piores. Mas não! Era perfeitamente natural.
Assim sendo, nós que nos dizemos tão liberais, somos mais antiquados que as pessoas de antigamente.

Anónimo disse...

O que o tempo faz:
tira as pessoas da cena.
O autor, passou à história - à prateleira do tempo.
E a anedota tornou-se abstrata.
Ali há um frade (um tipo), uma lavadeira e um bom par de alegorias.
Não é o frade Micaelo nem a badalhoca da lavadeira do fim da rua.
É a ordinarice na sua plenitude e pureza.
O que nos incomoda são as pessoas ordinárias e badalhocas. Nunca a badalhoquice ou a ordinarice. Muito menos na sua versão literária ou erudita.
Uma coisa é certa: esse tal Leonardo... da...-...se!