04 setembro, 2009

O TURISMO LIBERTA

Quando ouço dizer que Portugal é um país bonito, fico sempre sem perceber o sentido da frase. Quando alguém diz que gostaria muito de ir a Itália, fico confundido. Por que razão uma pessoa há-de querer ir a Itália? O que é a Itália? A Itália, enquanto país, não se vê, não passa de um nome. Também quando se diz que o “Homem é um ser racional”, estamos a falar de quem? Alguém já viu o Homem a passear no Cais do Sodré num domingo à tarde? Com os países é a mesma coisa. Ninguém vê a Itália. O que se vê em Itália são cidades, aldeias, campos. Mas mesmo assim, o que é uma cidade? O que é Roma? “Roma” não se vê. Roma é um conjunto de avenidas, ruas, praças, lojas, casas, jardins, igrejas, palácios, ruínas, estátuas.
Daí eu não poder dizer que gosto de Portugal. Gosto, sim, de alguns sítios de Portugal. De lugares com história, da mata do Bussaco, de Serralves, do Alentejo na Primavera, de algumas ruas de Sintra, do Convento da Arrábida ou de Castelo de Bode depois de toda a gente se ter ido embora. Mas de Portugal não posso gostar porque Portugal não se vê. Quando penso em viajar não penso em países ou cidades mas em sítios. É disso que eu gosto. De sítios. Daquela praça ou esplanada, ou igreja, ou estátua, ou casa, ou rua, ou do pôr-do-sol naquela praia, tal como gosto de conversar com o João ou o Manuel e não com o homem com H grande.
Sítios que tenham almas. Sítios que tenham a mesma essência de certas pinturas, filmes ou poemas. Sítios onde pense: era aqui que eu gostaria de tomar café até ao fim da minha vida. Era nesta rua que eu gostaria de morar. Era nesta praça que eu gostaria de ler o jornal todos os domingos de manhã.
Há um filme do Kurosawa durante o qual entramos para dentro das pinturas de Van Gogh. Pois é assim que me sinto bem nos sítios de que gosto: ser absorvido por eles, ser engolido, tal como Alice quando cai no buraco. Se eu fosse muito rico, pagaria uma viagem a todos os meus alunos para ir dar uma aula em Auschwitz. São estes sítios do mundo que vale a pena visitar e com eles aprender alguma coisa sobre o sentido da vida, da beleza, mas também da mais absoluta e miserável abjecção.
No portão de entrada ainda está escrito “Arbeit macht frei”: o trabalho liberta. Mas o turismo também pode ser libertador. Ainda que perdidos no meio da noite mais escura e do mais sujo nevoeiro de que há memória.

3 comentários:

addiragram disse...

Parabéns Ricardo. Muito boa crónica. Eu sou menos selectiva, talvez. Gosto de todos os lugares em que me consigo sentir "unida" a eles. Os ingredientes, às vezes, são muito poucos. Uma coisa é certa, não me basta o lugar...

marteodora disse...

Zé,
tens muita razão.

Porém, outra perspectiva:
Há lugares que nos absorvem e que nos dão a sensação do cenário perfeito para viver, tomar o tal café ou passar aquela noite.
Mas é preciso haver muitos euros guardados apenas para isso.
Se fazer turismo fora das fronteiras portuguesas será só possivel a alguns, andar por terras lusas não é menos dispendioso. Sobretudo, se quisermos ficar hospedados nos tais lugares cujo ambiente nos absorve.E não é preciso lá ficar nove semanas e meia (LOL), basta um fim-de-semana. Eh,eh,eh.

Fazê-lo, meu caro, só para quem pode (mesmo à custa de alguns sacrifícios) porque com os preços que por cá se praticam corre-se mesmo o risco de ficar preso ao cartão de crédito; e durante muitos meses!

José Ricardo Costa disse...

Margarida, também tens muita razão. Mas tudo depende.

Claro que o ideal será dormir uma noite no hotel do Bussaco. Mas também não estamos condenados a escolher entre o ideal e o nada. Aliás, Torres Novas, nesse aspecto, está muito bem situada. Podemos ir a montes de sítios passear sem ter que dormir. É só gasolina e, se for caso disso, portagens. Mesmo em relação à comida, a estratégia dos farnéis, dá um óptimo resultado (by the way, faz-me confusão ver as pessoas a serem roubadas nas áreas de serviço, não gasto lá um cêntimo, só mesmo café em viagens longas. Claro que, para o estrangeiro, a coisa torna-se mais difícil. E aí tens toda a razão. Sem dinheiro, nada feito.

Bj,
JR