22 setembro, 2009

O PS


Pensemos num verdadeiro benfiquista. Se, por acaso, de uma época para a outra, toda a equipa do Sporting passasse para o Benfica, ele não passaria a ser do Sporting. A equipa é que mudou, não ele. Ser benfiquista é ser benfiquista independentemente da equipa, do treinador, do presidente, da classificação.

A minha mãe, que tem 80 anos, sempre votou no PS. Aliás, o meu pai foi um dos fundadores do PS em Torres Novas e as minhas primeiras (e únicas) vivências políticas e partidárias foram todas dentro do PS. Se eu perguntar à minha mãe em que partido irá votar daqui a 12 anos, de certeza responderá que será no PS. Tal como um benfiquista, não precisa de saber quem será o secretário-geral e a orientação ideológica do PS daqui a 12 anos. É do PS e ponto final.

A maior parte das pessoas com quem me relaciono fazem parte desse imenso eleitorado que deu a maioria absoluta ao PS. Eu próprio votei no PS, contribuindo para essa maioria. Neste momento, grande parte dessas pessoas não vai votar no PS. Eu não vou votar no PS. Contrariando, aliás, o que seria o nosso voto natural e previsível.

Ora bem, onde quero eu chegar? Quero dizer com isto que pessoas como eu e todas essas que tradicionalmente votam no PS, ao sermos muito críticos em relação ao PS actual, ao engenheiro ou a certos ministros, não o fazemos por fanatismo ou sectarismo. Aliás, como poderia ser por sectarismo se a nossa seita natural é o PS? O modo como criticamos o engenheiro não pode ser confundido com o modo como um comunista ou um social-democrata critica o engenheiro. Estes criticam porque estão envolvidos numa disputa partidária. Se ganham uns, perdem os outros.

Agora, se pessoas que tradicionalmente votam no PS e estão ligadas ao PS criticam o PS ou o engenheiro, não será certamente devido a qualquer campanha negra, agenda oculta, necessidade de criticar destrutivamente apenas por criticar. Tal pode significar que muito provavelmente haverá razões para isso. Que muito provavelmente a razão pode estar do lado dessas pessoas. Que muito provavelmente o fazem de boa-fé. Que muito provavelmente o engenheiro não terá razão quando diz que simplesmente as pessoas não entenderam a bondade, eficácia e valor deste governo.

Mesmo que ganhe as eleições, o que espero não venha a acontecer, será graças a pessoas como eu que o PS não irá ter a maioria absoluta como há quatro anos. Espero, mas espero muito sinceramente, que daqui a quatro anos (se a legislatura for cumprida), eu possa vir de novo a votar no PS. Com o engenheiro, politicamente, morto e enterrado.

7 comentários:

estela disse...

o primeiro parágrafo está óptimo!
só um benfiquista para ser do benfica independentemente do futebol ;)

eu, como sou do sporting, sei que isso dos lagartos passarem a encarnados todos ao mesmo tempo nunca acontecerá :) mas percebo a intenção e os paralelos.

mas a verdade é que infelizmente, o que eu sofri nos anos 80 a viver a espera de um campeonato ganho, foi muito pior que o que me parece sofrer hoje o socialismo nacional ;)

jl disse...

Sem dúvida que me parece um raciocínio escorreito, duma irreprensível dedução, sem argumentos falaciosos.
Não sou eu que sou o filósofo, mas creio que chega para ver, nesta, aqui em análise, uma declaração sem qualquer espécie de dolo ou sofisma.
E sincera.

Austeriana disse...

Exactamente.
Tenho familiares que utilizam este argumento do "once a benfiquista, always a benfiquista" para justificar o voto no PS.
A diferença é que as implicações socráticas na minha vida e na dos portugueses em geral são muitas e, pese embora eu ser benfiquista, quer a equipa ganhe, quer perca, com isso posso eu bem (até já me comecei a habituar, embora isto agora esteja a melhorar). O mesmo não posso dizer em relação aos próximos resultados eleitorais.
Depois, também me complica com o sistema nervoso o argumento bacoco de que só temos dois partidos que podem ser governo, com a agravante de a ideia se ter entranhado no subconsciente dos portugueses - a ajuizar pelos tradicionais resultados eleitorais.
Enfim, peço desculpa por o comentário estar demasiado longo, mas esta triste figura do PR a demitir o homem de mão também acaba por confirmar que o Dr Jekyll e Mr Hide não é exclusivo do PS.

addiragram disse...

Subscrevo.

Alice N. disse...

Mais uma vez, subscrevo inteiramente. Nunca tive actividade política nem militância, mas sempre votei P.S. e nunca me passou pela cabeça votar noutro partido. E o mesmo acontecia com quase toda a minha família, colegas e amigos. Continuo socialista, mas não tenho partido socialista em quem possa votar, porque esse partido, simplesmente, já não existe, mantendo apenas e despudoramente o nome. Hoje, sou politicamente órfã. Defendo alguns valores e achava que o P.S. era o partido que melhor os representava. Já foi ou, pior ainda, enganei-me. Vou ter de engolir um sapo enorme no próximo domingo, no momento de votar, mas desejo ardentemente a derrota do partido socrático.

Só não me revejo no que o José Ricardo diz na última frase. Não conto NUNCA MAIS votar P.S. Não esqueço, não perdoo e não corro o risco de voltar a ser enganada. Não voto em quem me espezinhou, não voto em quem me tratou abaixo de cão, não voto em quem me roubou o futuro e a dignidade. NÃO! Não voto em quem quer tirar-me o que me resta: a entrega e paixão que ponho naquilo que faço. E se eu valho muito pouco, o país e os jovens em particular merecem muito melhor.

jl disse...

Claro que se a dedução fosse irreprensível... era manhosa. Mas irrepreensível já é outra coisa...

JMV disse...

Obrigado pelo ar fresco que por aqui passa!