15 setembro, 2009

LEVÍTICO IS COOL


Esta notícia, mais uma vez, faz-me temer o pior.

Uma das razões invocadas pelos regimes comunistas para justificar a interferência do Estado na vida privada das pessoas, reside no facto de se acreditar em fins únicos e objectivos relativamente à felicidade e realização dos seres humanos. Claro que esses seres humanos não são estúpidos. Mas podem andar distraídos ou desviados, revelando dificuldades na concretização dos seus objectivos. Felizmente, existe o Estado, o Partido, intelectuais que sabem o que é melhor e pior para as pessoas. No fundo, é isso que os pais fazem com os filhos. Uma criança quer ser feliz. Mas, porque é criança, não sabe concretizar esse objectivo. Cá estão pois os pais para lhe dizer o que deve comer, quando deve dormir, que filmes pode ver, onde pode ir, com quem deve andar, etc.

Ora, eu pensava que uma das características fundamentais de uma democracia liberal consistia na existência de uma pluralidade de fins para a vida humana. O que me faz feliz não é necessariamente o que faz feliz o meu vizinho do lado. E se o que me faz feliz não prejudica o meu vizinho do lado (e vice-versa), e todos os outros vizinhos do mundo, não há razões para me impedirem de ser feliz.

O que se passa, pois, com esta notícia é qualquer coisa de bizarro. Já não se trata de proibir alguém de fumar num espaço fechado, o que tem a sua legitimidade. Estamos a falar de um espaço aberto onde o fumo de um cigarro ( e estamos a falar de uma cidade como Nova Iorque, que não tem propriamente o ar puro do Alasca) não incomoda ninguém.

Eu só vejo um motivo para isto. A falta de ideais, de grandes objectivos, de grandes lutas que caracterizam as democracias actuais. O socialismo morreu, o cristianismo morreu, a democracia enquanto objecto de luxo pelo qual se lutava morreu. Tudo isto foi susbstituído pela ideologia da qualidade de vida, da saúde, do bem-estar, da beleza e aspecto limpo e saudável enquanto filosofia de vida.

Só que, sendo tudo isto muito moderno não deixa de ser ao mesmo tempo profundamente primitivo. Quem sabe um bocadinho de antropologia não pode logo deixar de pensar nas atávicas noções de puro e impuro, vindas do fundo dos tempos mais religiosos e primitivos. Aliás, vendo esta notícia sobre a proibição de fumar nos jardins, a primeira coisa que me veio à cabeça foi o Levítico.

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