22 setembro, 2009

GUERRA E PAZ - LXIV

"Kutúzov estava sentado com uma perna descida para o chão e a outra dobrada em que se lhe esbandorrava a barriga gorda. Estreitou o seu único olho para examinar melhor o mensageiro, como se lhe quisesse ler nos traços do rosto o que o preocupava".
No Guerra e Paz, Kutúzov é uma figura quase tão imponente como Napoleão. Será, digamos assim, até mais do que o imperador, o Napoleão dos russos. Torna-se curioso, nesta passagem, o modo como o romancista sugere um grau de intimidade entre nós e o grande comandante russo. Kutúzov surge aqui numa das posições mais anti-sociais que se possam imaginar, quase o cúmulo da pose descontraída. Nós estamos a ver Kutúzov como muitos poucos que o rodeavam o terão visto, o que nos dá uma enorme sugestão de conhecimento.
Mas não será ilusória? Sim, de certo modo. O romancista está a imaginar, está a ficcionar. Não é um repórter que partilha aquela sala com Kutúzov e relata para o exterior o que lá se passa. Neste sentido, caímos numa ilusão. Só que, sendo uma ilusão, não nos aproxima muito mais da realidade dos factos do que o cinzento, frio e impessoal historiador? Ou seja, o historiador, com a sua (legítima) necessidade de objectividade não retira ao passado as suas cores?
O romancista, embora num processo ficcional, tenta imaginar a vida como ela é. Ou pelo menos como poderia ter sido o que não deixa de ser uma maneira de ter sido, pois a história não é feita de encadeamentos causais e o que foi poderia não ter sido do mesmo modo que o que não foi poderia ter sido.

1 comentário:

Mafalda disse...

Um dos meus livros é um romance histórico chamado "Querido Frank" que retrata o caso amoroso do grande Frank Lloyd Wright e de Mamah Borthwick, pela perspectiva desta última. Desde logo me apaixonei-me por Mamah. Desatei numa pesquisa desenfreada por factos de sua morte e indícios da sua vida.
Ao ler este post, entendi que a minha admiração pertencia mais à personagem criada por Nancy Horan, a autora. Porque pesquisar e organizar factos, toda a gente o faz com um pouco de esforço; mas apenas o escritor possui o poder de dar vida ao que já morreu.