15 setembro, 2009

GUERRA E PAZ - LXII

"Naquelas horas de solidão, sofrimento e delírio depois do ferimento, quanto mais pensava no princípio novo do amor eterno que se lhe revelava, mais renegava, sem se dar conta, a vida terrena. Amar tudo, amar a todos, sacrificar-se em prol do amor significava não amar ninguém, significava não viver a vida da terra. E quanto mais se impregnava deste princípio de amor, mais renegava a vida e com mais perfeição eliminava a barreira terrível que, sem amor, se ergue entre a vida e a morte. Quando, naqueles primeiros momentos, se lembrava de que tinha de morrer, dizia a si mesmo: está bem, tanto melhor".

Nesta passagem relativa aos momentos que antecederam a morte do príncipe Andrei, está todo um programa. Um programa que nos permite melhor entender patifes como Jean-Jacques Rousseau, revolucionários que deram a vida por um mundo melhor ou terroristas islâmicos. Rousseau, o amante do género humano, o romântico revoltado com as injustiças do mundo, desprezou os próprios filhos. Há muitas vezes nesta propensão para o universal, uma pulsão negativa relativamente ao concreto. Aliás, é muito fácil amar a humanidade enquanto se pensa na solidão do quarto. O pior é mesmo no outro dia de manhã quando se deixa de pensar nessa humanidade para passar a dar os "bons dias" aos vizinhos.
É por isso que o príncipe Andrei já se sente preparado para morrer. Amando todos, amando a humanidade, e quem diz humanidade diz um Deus ou um ideal, no fundo, já não ama ninguém. É isso que sentem os terroristas quando se fazem explodir. A humanidade muda muito pouco ao longo dos tempos.

1 comentário:

addiragram disse...

O príncipe Andrei, tal como os fundamentalistas, constrói uma fantasia de fusão com esse Universo-Deus, tornando-se, assim, ele próprio esse mesmo Deus. Trata-se de um processo psíquico, primitivo, com origem nos primórdios da existência,em que sujeito e objecto se confundem, tornando-se um só.
Como muito bem disse, a propensão para amar o Universal esconde, de um modo geral, um profundo desprezo pelo concreto. Tal é particularmente evidente em determinadas ideologias em que, em nome de um ideal, se cometem as mais violentas atrocidades. Também o é, em determinados doentes obsessivos, incapazes de pensarem as suas relações próximas, mantendo relações profundamente desvitalizadas e desumanizadas.