09 setembro, 2009

GUERRA E PAZ- LVIX


Umas das ideias centrais do romance é a seguinte: se quiseremos entender a história, a complexa teia de causalidades que explicam a evolução das cenas em cima do palco, temos de ir muito para além do que é visível, da lógica mais elementar, dos esquemas racionais convencionais que nos dão a ilusão de podermos ter uma percepção objectiva dos factos.

Este artigo lembrou-me as resistências que Marques Mendes encontrou para se conseguir impor no PSD. Sim, é verdade, há contra-exemplos. Sá Carneiro não tinha propriamente o corpo de um jogador de rugby e foi um estadista de "elevada estatura". E António Gueterres, estando longe de ser um político de "elevada estatura", ganhou eleições.

Tudo isso é verdade. Mas Sá Carneiro tinha um rosto agressivo de falcão e um ar predador. António Guterres, por sua vez, não tinha um rosto agressivo mas tinha, no conjunto, uma aparência física agradável, polida, de "tio que cada um de nós gostaria de ter para uns fins-de-semana na praia".

Ora, Marques Mendes, para além da carência de centrímentros, tem ainda um rosto e uma dicção que não o favorecem. Digamos que, imaginando-se o barco a ir ao fundo, olhando para o comandante Marques Mendes, sentimos que estamos mesmo condenados. E se Marques Mendes, tendo uma aparência diferente, tivesse sido primeiro-ministro? A nossa vida, hoje, poderia ser em certos aspectos diferente do que é.

Diz ainda o texto que, segundo uma teoria, os homens baixos tendem a ser agressivos (Napoleão). Ora, os contra-exemplos são mais que muitos (a começar por este blogger que também não foi especialmente dotado nos centímetros). Mas vamos supor que a altura teria influenciado o seu carácter. Se assim fosse, a história poderia ter sido, de facto, muito diferente. E um romance chamado "Guerra e Paz" nem sequer teria chegado a ser escrito.

3 comentários:

Alice N. disse...

Este texto lembrou-me uns extraordinários versos de Fernando Pessoa:

"Porque eu sou do tamanho do que vejo,
E não do tamanho da minha altura..."

E agora volto aos papéis da minha direccção de turma que não me deixam ver muito longe...

sofisma disse...

Perdoa-me a intromissão. Como incauto, desaguei na foz deste espaço, e não me coíbo de felicitar não somente a escrita (muito cativante) como o índex imagético lateral povoado por vultos culturais, e no qual, tive o agrado de verificar Eisenstein que tanto prezo. Ora, e tratando do post em questão, quanto a mim tudo se baseia numa questão de estratégia, mesmo que no último reduto, esta passe por um diletante trompe l'oeil por parte de quem, além de ser baixo carece de carisma como o Dr. Marques Mendes. Repescando Eisenstein e Napoleão (dois estrategas), gosto de evocar uma passagem de um livro de reflexões do cineasta, em que este se compara justamente com Napoleão, designadamente na questão organizacional e na riqueza dos efeitos para esse fim: Eisenstein conta que, tal como Napoleão, aquando dos perídos vespertinos de batalha, tirava o pulso do regimento e antecipadamente, tratava de entrosar-se com um dos soldados no âmbito de obter informações dum terceiro, de modo a que, quando se dirigisse ao batalhão desgovernado, aplicasse cirurgicamente a sua diatribe ao terceiro transmitindo a ilusão de que lograva conhecer todos ao regimento; Eisenstein adoptava o mesmo processo quando dirigia multidões contratadas a soldo aquando da rodagem d'"O Couraçado de Potemkin", aplicando a sua sagacidade enunciando directamente o nome de um dos figurantes, contagiando desta forma o respeito dos restantes.

Uma vez mais, desculpa a intromissão.

Guilherme

José Ricardo Costa disse...

Caro Sofisma,

Intromissão? Por quem és!

Entendo a analogia. Só que há uma enorme diferença entre a realização de um filme e a realização da história. Eisenstein era o autor do seu próprio filme. Planeou e fez. Napoleão, pelo contrário, embora julgando-se sentado na sua cadeira de realizador, olhando para Borodino ou Austerltiz como se estivesse num estúdio de cinema, não era o único responsável pelo que está a acontecer. E essa é, muitas vezes, a ilusão de quem planifica, racionaliza, legisla.

Alice,
Direcção de turma? Olhe, mal por mal, antes os Ponteiros Parados. A minha sincera e profunda solidariedade.

JR