02 setembro, 2009

GUERRA E PAZ - LVI


Eis Napoleão depois de ter entrado numa Moscovo a arder e completamente abandonada pelos seus habitantes:

"Das alturas do Kremlin (sim, é o Kremlin, é ele) ditar-lhes-ei as leis da justiça, mostrar-lhes-ei o significado da verdadeira civilização, obrigarei todas as gerações de boiardos a recordarem com amor o seu conquistador(...).
Quando disseram a Napoleão, com as devidas cautelas, que Moscovo estava vazia, ele olhou com ar zangado para quem assim o informava e, virando-lhe a cara, continuou a andar em silêncio.
«Moscou déserte. Quel événement invraisemblable», pensava ele. Não foi para a cidade, aquartelou-se numa estalagem no subúrbio de Dorogomílovo.
Le coup de théâtre avait raté"

É verdade que a história está cheia de golpes de teatro. Umas vezes como tragédia, outras, como comédia. Mas raramente como história de amor. Sobretudo, quando se trata de subjugar um povo. Obrigar a recordar com amor um conquistador é tão absurdo como pedir a uma mulher violada que recorde com amor o seu violador.

2 comentários:

addiragram disse...

Seguramente! Uma total impossibilidade.Não há pontos de contacto entre o amor e a violência do exercício do poder.

hipericão disse...

Mas este seu Tolstoi é uma versão para criancinhs, não?.Os moscovitas tinham já incendiado, antes de fugirem, por ordens de Kutozov, muitos edifícios, para que o exército invasor não encontrasse quartéis nem abastecimentos.Bonaparte, uma figura complexa, não andava no Rremlim à procura do "povo", mas dos hierarcas máximos, como é óbvio.

E quanto aos invasores e invadidos, nada de "fadinho". A realidade ou a lenda que a glosa, é mais complexa, mais uma vez. Basta lembrar a famosa Mariana Alcoforado e o Marquês de Chamilly.