18 setembro, 2009

FERNAND KHNOPFF- OUVINDO SCHUMANN


Esta pintura é deslumbrante. Não apenas pela sua beleza, intrínseca expressividade, força emocional, mas também pelo seu significado.

Se pensarmos na relação que a maior parte dos povos do mundo mantém com a música, encontramos quase sempre uma função social, religiosa, ritual, sendo difícil encontrar uma relação que não passe pela manifestação do corpo. De todas as expressões artísticas a música é aquela que penetra mais fisicamente no sistema nervoso central. Daí a forte relação entre a música e o corpo. O corpo reage naturalmente perante a presença do som, o que não acontece com a pintura ou a literatura, expressões artísticas cujas vivências são claramente internas e até intransmissíveis. Uma pessoa que está ao meu lado e que me vê a olhar para o Enterro do Conde de Orgaz, pode ter a percepção do que estou a sentir. Mas é uma percepção vaga e distante se comparada perante alguém que dança samba, salsa ou tango.

É por isso que esta pintura nos obriga a olhar para a nossa relação com a música. Grande parte da música erudita não tem qualquer ligação com esquemas funcionais. Claro que há as marchas nupciais, música para funerais, para bailado ou para dançar em bailes, para fogos de artifício. Mas, ao contrário destas, grande parte dela visa apenas uma vivência puramente interior.

Esta mulher que ouve Schumann está toda ela concentrada na sua própria interioridade, diluindo-se todo o espaço à sua volta. Não podemos saber o que pensa ou sente. Mas sabemos que pensa ou sente por causa da música e que pensa o que pensa e sente o que sente por causa da música. Ora, tal posição não surge isolada na nossa cultura. Ao contrário de outros, o nosso caminho foi no sentido de fora para dentro, de um gradual afastamento dos elementos funcionais. A própria poesia e pintura, noutras culturas, deverão ser entendidas num plano exterior, por exemplo, associadas à religião, enquanto nós podemos manter com a poesia e a pintura a mesma relação que esta mulher mantém com a música de Schumann: puramente contemplativa e ensimesmada. A própria ciência, enquanto fenómeno que atingiu o seu auge na nossa cultura por via de um processo de racionalização cada vez mais formal, pode ser entendida deste modo. Esta mulher ouve Schubert mantendo com o seu corpo e o espaço envolvente a mesma relação de um cientista, às voltas com um problema, uma dúvida, um quebra-cabeças.

É por isso que esta pintura extravasa, e muito, o nosso modo de nos vermos ao espelho quando ouvimos música. Ajuda-nos a ver melhor quem somos e o que, séculos e séculos de vivências cristãs, morais, científicas e filosóficas, fizeram de nós.

1 comentário:

Anónimo disse...

Como sempre encantado com as análises pictóricas. É a visão descritiva que atentamente nos leva mais longe e com um sabor cultural único.
Atenciosamente.
João Alfaro