24 setembro, 2009

EUROPA MINHA

Ticiano, O rapto de Europa
Não tenho a culpa, mas gosto de me sentir mais europeu do que português. Temos, é verdade, o bacalhau à Braz, o vinho verde e o Fado. Mas há um enorme património europeu com o qual gosto mais de me identificar. Mais do que sentir-me ribatejano em Portugal ou português na Europa, do que eu mesmo gosto é de me sentir europeu no mundo.
Posso ser anormal, mas gosto mais de uma ópera de Purcell do que de uns batuques africanos. Não tenho a culpa de preferir o som do piano ao de umas cornetas tibetanas. Ou de me sentir muito mais atraído por cidades como Paris, Londres Estocolmo, Florença, S. Petersburgo ou Amesterdão do que por Luanda, Adis Abeba, Kuala Lumpur ou Pequim.
Gosto da filosofia grega, da ciência renascentista, dos escritores clássicos europeus, gosto dos iluministas franceses, dos liberais ingleses, gosto da Magna Carta, do Code Civil, gosto da pintura e escultura europeia, gosto das ideias e revoluções que, a partir da Europa, transformaram o mundo para melhor, já sem falar na Fanny Ardant.
Há pessoas que têm quase um sentimento de culpa por serem europeus ou descendentes deles. Muitos intelectuais do século XVIII acharam que, nós, europeus, os impuros, não fizemos outra coisa senão destruir a virginal mansidão de povos inocentes. Mas não é bem assim. A cultura ocidental não inventou o mal e a barbárie, apesar de, em determinados períodos os ter praticado. O mal, infelizmente, é património mundial.
A Europa está a viver um problema de identidade e de auto-estima. Dizemos que está envelhecida e cansada. O multiculturalismo leva-nos muitas vezes a ficar inebriados com pulsões culturais que, consideramos mais jovens e mais enérgicas. Ora, tudo isto não passa de um disparate.
Em que parte do mundo se vive melhor do que na Europa? E onde há mais tolerância? E liberdade? Seja esta individual política, religiosa? Está certo que ser europeu não é condição necessária para se ser feliz. Mas é a condição ideal para se ser feliz.
A Europa recebe muitos não europeus. Eu gosto que a Europa receba muitos não europeus, não só porque precisamos deles mas porque também gosto que os não europeus sejam tão felizes como os europeus e a Europa é o sítio ideal para o poderem ser.
Mas para podermos sobreviver num mundo multicultural, temos que aprender a gostar de nós próprios e a não ter vergonha dos motivos que alguns alegam para nos quererem destruir. Devemos sentir orgulho na vida, na liberdade, na tolerância, no prazer, tal como outros sentem na morte, na opressão, na miséria e no sofrimento

2 comentários:

Mafalda disse...

Concordo em absoluto! Também eu tenho um fascínio tremendo pela Europa. Se amaldiçoo o destino por me ter feito nascer em Portugal, agradeço-lhe por Portugal ser parte da Europa.

José Borges disse...

Muito bem!