26 setembro, 2009

EDUARDO BENTO

O Eduardo Bento apresentou, hoje à tarde, no auditório da biblioteca de Torres Novas, um belo livro de poemas. Quando chego ao audiório, diz-me que este poema seria para eu dizer. Eu, que nunca tinha dito um poema na vida, leio-o e, quando chego ao fim, entendo claramente por que razão fui escolhido para o dizer. Obrigado, Eduardo, por me teres concedido o privilégio de dizer o poema que gostaria de ter escrito e nunca fui capaz.

A casa vazia é um eco distante
de um tempo povoado.
Agora um vento de abandono
tomou conta de tudo.

A casa é um lugar triste
quando as janelas estão cerradas para a rua,
ou quando se desce a escada pela última vez,
ou o som da porta se fecha sobre todo o passado
e as vozes se suspendem, ou só um murmúrio
indicia uma presença que se perde para sempre.

A casa em ruínas
é onde o tempo dói,
onde tudo nos diz
que a vida se molda de partida e de ausência.
O bolor nas paredes,
acaliça verde do abandono,
os vidros soltos
e as janelas batidas pelo vento nocturno,
dizem-nos da debandada do riso,
dos passos de outrora,
de braços suspensos noutros braços,
da mão da ternura poisando
num ombro tão dorido
que até a luz matinal de domingo
dói.

6 comentários:

Alice N. disse...

Belíssimo e profundamente comovente!

VNI disse...

Gosto da poesia e da prosa que dão vontade de dizer. As palavras colam-se a nós e ditas ecoam, materializam-se e ganham vida.Este é um poema assim que dá vontade de dizer, de anunciar de o tornar vivo e por isso mesmo magnífico. Parabéns ao autor e a quem o leu é bom saber que a poesia ainda entusiasma as pessoas.

addiragram disse...

Extraordinário poema.Ser escolhido para o ler é a expressão de uma grande amizade.

graça martins disse...

...gostaria de ter acompanhado esse momento. Sempre admirei o Eduardo Bento e a sua generosidade e a sua simplicidade que fazem dele um Homem de especial presença na cidade de Torres.
Agradeço a possibilidade de ofereceres a ausentes, como eu, um aroma do que aí vale a pena me dá saudades...
abraços,
mgm

José Ricardo Costa disse...

Um abraço que chegue aí ao sul acompanhado do desejo de que a nova vida corra de feição, pessoal e artisticamente.

JR

Anónimo disse...

Obrigado pelos considerandos, a todos e especialmente ao ZRicardo
EB