29 setembro, 2009

DICOTOMIA (II)

Hoje, mais uma vez, ninguém sabia numa turma de 12ºano o que significa "dicotomia". Nesta turma, ao contrário da anterior, ainda foi mais grave. Trata-se de uma turma onde estão alunos com notas muito elevadas, conseguindo, graças a elas, entrar em cursos "nobres".
Sabem o que eu acho? Com aquela absurda, estúpida e infame ideia vendida pelo eduquês segundo a qual as criancinhas não suportam aulas expositivas e que têm que estar a fazer trabalhinhos e coisinhas e isso, e que o professor só poderá comunicar com os alunos se impingir doses maciças de powerpoint e de coisas que mexem com muitas cores, os alunos já não ouvem os professores exporem ideias como nos bons velhos tempos. Ora, quem não ouve falar, jamais aprenderá a falar.
Pois eu cá sou assim. Dou aulas expositivas, adoro dar aulas expostivas e exigo que os meus alunos me suportem a dar aulas expositivas. Para além disso, sou pago para trabalhar e não para pôr os alunos a trabalhar. Um dia, irão agradecer-me. E eu sei porquê. É que muitos já me agradeceram.

11 comentários:

Austeriana disse...

Em primeiro lugar acho curiosíssima a designação «Ciências da Educação»... Educação, uma ciência? Talvez obscura...
Depois, se observarmos as aulas dos pregadores das «Ciências da Educação», verificamos que eles dão aulas expositivas!
Acresce que é dado adquirido que a organização das ideias no discurso oral se desenvolve ouvindo o que os outros têm para nos dizer e falando em função do que se escutou.
Muito pouco do que conheço desta história das «Ciências da Educação» faz sentido e o que é facto é que sempre que tenho contacto com os que as defendem verifico que a teoria está longe da prática.

Anónimo disse...

Tinha um professor na universidade que adorava dar aulas às 8h30. Como era custoso, especialmente nos dias de inverno, ir a essas aulas...

No entanto o mesmo professor justificava a sua opção matinal dizendo, «É nessa altura em que o cérebro ainda mal acordou que o ser humano consegue reter mais informação, pois não consegue contrariar o que o professor diz». Eu sei que parece a antítese do que deve ser o ensino "democrático", mas o que é certo é que funcionava. Os que afincadamente tentavam ir às aulas sentiam bem na pele a noite anterior. Mas o conhecimento era por nós absorvido quase no estado de dormência. Havia até quem se quedasse a dormitar, para depois ser apanhado com perguntas sobre o que estava a ser leccionado. Os outros alunos procuravam então ficar mais alerta, para que não incorressem na mesma prevaricação.

Assim, José Ricardo, aproveito para insistir que continue a ser anti-pedagógico-moderno-coitadinha-criancinhas e faça o seu trabalho o melhor que conseguir, ensinando e transmitindo conhecimento.

Nunca o tive como meu professor, mas se vale de alguma coisa, tenho pena de que não o fosse. Tive outros, uns ao seu nível, que se esforçaram por esclarecer os alunos e dar-lhes "coisas para pensar".

Luis

Margarida Graça disse...

Dicotomia, introspecção, Nobel da Literatura Portuguesa: turmas inteiras, de escolas diferentes, do Conselho de Torres Novas, ignoram! Independentemente de serem bons ou maus alunos, ao que parece estão todos no 12º ano! Os meus são cerca de 30! Já precisei de usar a palavra "axioma" e inibi-me de a usar, sentindo-me de repente num "novo mundo", onde só cabiam palavras subjectivamente tecnologizadas... Foi então que me perguntei se eu também teria que me transformar num axioma digital para poder ensinar a ler poesia...

marteodora disse...

Tu és um excelente professor, Zé Ricardo.
E toda a gente sabe disso.
Por isso te reconhece os teus alunos e te hão-de continuar a reconhecer.
Parafraseando o professor Eduardo Bento (uma referência como homem e como professor) "os meus alunos estão sempre caminhando do meu lado".
Um dia, quando olhares para o lado, os teus alunos também lá estarão e, nessa altura, lembrar-se-ão, certamente, das "dicotomias" aprendidas nas aulas de Filosofia do prof. Zé Ricardo.

José Ricardo Costa disse...

Ó Margarida, dizes isso porque nunca foste minha aluna, eh, eh...

Repara, eu não me considero bom nem mau professor. Sou um professor normal que tenta fazer o que é suposto fazer: ensinar. Só que, ensinar, hoje, não é uma palavra bonita. Temos que levar os alunos a aprender a aprender e a "pesquisarem" sozinhos o que nós ensinaríamos em 90 minutos de aula. A escola, o ensino, actualmente, fedem. É só professores modernaços e cheios de cagança psicopedagógica.

JR

marteodora disse...

Também não sou completamente contra o construtivismo e até considero o método necessário. Mas não o encaro como estritamente necessário, sobretudo em disciplinas, como é o caso da filosofia, em que os ensinamentos do "mestre" devem ser escutados como ponto de partida pra outros voos.
Percebi o teu ponto de vista e acho que também percebeste o meu no comentário anterior.
E, caso não saibas, adoraria ter sido tua aluna...o método expositivo sempre me fascinou (embora eu seja uma autêntica gralha, sei calar-me perante vozes "mais altas").

draaninhas disse...

Eu que fui sua aluna falo com perfeito conhecimento de causa e um profundo agradecimento pelo excelente professor que foi, é e sempre há-de ser. Agradeço as aulas expositivas, os ensinamentos de filosofia e de vida e é dos professores de quem falo com maior orgulho. Hoje, ao acompanhar este blog ressalvo assim a luta contra a corrente e a certeza de que na escola ainda há quem ensine de verdade.

José Ricardo Costa disse...

Cara draaninhas, a pessoa ouve isto e até fica com mais vontade de ir para a escola no dia seguinte. Nós estamos na escola por causa dos alunos. Se os alunos perceberem isso, fica tudo justificado.

Muito obrigado e abraço,

JR

Miguel e Rita Clara disse...

Como estou em fase de transumância permito-me comentar. Tenho a firme convicção que o horizonte das ideias se apequena longe do rio largo.
Vim aqui uma 1ª vez após um artigo de opinião irónico acerca de educação.
Regresso por vezes.
Há alguns anos uma senhora (que depois foi secretária de estado) nos tempos da história da paixão pela educação, afirmou que a educação praticada nas escolas era uma violência contra a natureza das criança. Creio que de então para cá a educação passou a ser uma violência contra a humanidade. Saber para além do senso comum, do comentário á taxista, da piada fácil é tão profundamente obsceno que deve ser escondido.
Talvez o poder se legitime através da ignorância ?
Para falar é necessário ter o que dizer. Não basta ter acesso ao vocábulo é preciso saber construir frases. A escola quer tanto estar atenta aos alunos que por vezes se olvida que se tornará tão mais apetecida quanto mais marcada for a diferença. que regresse a Academia, a retórica, o latim, a astronomia, a etica, a algebra, a história . o mestre e o aluno. Pois só perante mestres fortes se poderão erguer alunos inteligentemente rebeldes, fuuturos mestres.
( e o meu filho mais velho á espera de 1 professor de Filosofia há 15 dias.../ pequeno desabafo comezinho de EE bored)
Espero que continue coerente como parece!

Ana Correia disse...

Antes de mais gostaria de referir que considero este blog muito interessante e que me tem proporcionado bons momentos de leitura. Lendo os seus posts relativos ao estado da educação em Portugal, não pude deixar de intervir. Considero que fui uma privilegiada relativamente aos meus professores do ensino secundário e guardo deles as melhores referencias. O que mais lhes agradeço foi o facto de sempre nos terem ensinado a pensar, o que claramente nao foi feito atraves da exposição de power points. Entrei no ensino superior com uma média alta, e sempre fui uma aluna dedicada no secundário. Foi o suficiente? Não foi o suficiente. A verdade é que também os alunos sentem as enormes faltas do ensino secundário actual. E isto é um ciclo que se está a tornar cada vez mais complexo, em que as proprias licenciaturas se vao ajustando e aqui andamos nós a brincar com o futuro das novas geraçoes. Chegam alunos mal formados e mal educados ao ensino superior, a licenciatura não nos garante bases suficientes para o desempenho da nossa profissão, seguimos para o mestrado, que actualmente e com algum capital todos tiram, e a nossa qualificação é quase que ficticia porque na realidade sabemos muito pouco. Fica então aqui o meu protesto, como estudante do segundo ano de licenciatura, para que não seja passada a ideia de que todos os estudantes concordam com estas politicas de facilitismo e que também nós (ou pelo menos alguns) discordamos do o ensino que tivémos e do o ensino que outros como nós estão a ter.
Cumprimentos,
Ana

José Ricardo Costa disse...

Ana, começo por agradecer as suas simpáticas palavras. Agora, importante seria os próprios jovens estudantes começarem a manifestar o seu descontentamento pelo estado das coisas. Presumo que seja o seu caso. Enquanto não for assim, algumas cabeças casmurras irão sempre pensar que se trata de reaccionarismo e conservadorismo de meia-dúzia de saudosistas. Não é.

Cumprimentos,
JR