16 setembro, 2009

A AUTO-ESTRADA DAS TREVAS



Por estranho que pareça, as auto-estradas são um bom exemplo de vestígios medievais na sociedade portuguesa. Ainda há dias fui à zona de Sintra, sempre por auto-estrada. Foi com naturalidade que percebi que a organização das três faixas reflecte hierarquias sociais da Idade Média.

Na faixa lenta, encontramos sobretudo carros com mais de dez anos. É a faixa mais baixa da sociologia rodoviária: dos remediados, dos que estão no limite das possibilidades para pagar a casa, o infantário dos filhos e a quotas do Benfica. Comprar carro novo está tão fora do seu alcance como um castelo para um escudeiro. É a faixa dos peões e besteiros medievais.
A faixa da esquerda, pelo contrário, é uma faixa aristocrática, uma faixa de cavalos de raça à qual só os ricos-homens, cavaleiros ou infanções têm aceso. Os carros circulam, orgulhosos e altivos, com uma velocidade guerreira. Andam tão depressa que, para os carros da direita, funcionam como uma miragem que deixa um rasto de inveja atrás de si.

Até porque é mesmo assim que deve ser. Se o nobre medieval era socialmente obrigado a vestir certas roupas e a usar cavalos topo de gama, também certas pessoas deverão usar um carro que reflicta a sua posição social. Imaginemos um advogado ou um médico. Se anda num carro velho, o que vão as pessoas pensar? Que não tem dinheiro para comprar um carro melhor. Porquê? Porque não ganha para isso. Porquê? Porque não tem clientes ou doentes. Porquê? Porque não é um bom advogado ou bom médico.

Já os carros do meio têm um estatuto algo híbrido. Não se julgam suficientemente pobres para ter que circular na direita (daí colarem-se à faixa do meio a 90 km/h), mas também não suficientemente ricos para circularem livremente na faixa da esquerda. Bem poderiam ser os homens bons, vassalos, cavaleiros-vilãos. Condutores que, dentro do seu Punto, Corsa ou Clio, têm uma auto-estima social razoável, embora sem grandes motivos de orgulho.
Talvez um dia, numa era de elevada sofisticação tecnológica, venhamos todos a andar de comboio. Sem 1ª nem 2ª classe.

3 comentários:

jl disse...

Abordagem bem interessante. Comparações de elevada perspicácia...

Um registo diferente dos habituais do PP.
Diria que mais se aproxima dos do JT.

Gostei, está bem de ver.

Ega disse...

Caro José Ricardo,

Está desactualizado.

Agora já não existem a 1.ª e 2.ª classe.
Agora temos a classe turística e a classe conforto.
São os tempos modernos.

Mudam os nomes, fica a estupidez.

De resto, considero o comboio o meio de transporte mais civilizado à face da terra.

Cumprimentos,

Anónimo disse...

Ia a passar e encontrei o comentário,que a meu ver interessante.
Noto que tens um sentido de observação aguçado e digamos que hoje em dia isso é extremamente necessário.Pena,pois quando estamos na estrada não conseguimos parar para observar nada neste "ângulo".
Até deu pra rir...
Mas,essa do comboio ainda fica nos meus sonhos...idéia excellent!

Cumprimentos,