15 setembro, 2009

ANTOINE WATTEAU - ENSEIGNE DE GERSAINT



Esta pintura de Watteau é verdadeiramente maravilhosa. Não apenas pela composição mas igualmente pelo seu conteúdo. Aliás, a analogia com esse grande murro no estômago que é o Citizen Kane de Orson Welles, torna-se aqui irresistível. Mas passemos ao quadro.

Temos uma loja. Uma loja de arte, onde se compram e vendem quadros. Mas há ali no centro um subtil risco branco que serve para colar artificialmente dois níveis espaciais que, na realidade, são descontínuos: a loja e a sua arrecadação. Este artifício, no fundo, é semelhante ao que faz o realizador de televisão quando, nos debates a dois, mostra lado a lado os rostos dos candidatos, permitindo estar a ver o rosto do que ouve enquanto vemos o rosto do que fala.
Ora, o que se perde aqui em "realismo" ganha-se em poder simbólico. Vejamos porquê. Do lado direito, na loja propriamente dita, temos comerciante e compradores completamente envolvidos na análise e apreciação de quadros. Veja-se, por exemplo, a atenção e dedicação com que as pessoas observam. Estamos, portanto, perante a valorização de uma realidade à qual se pode associar a beleza, o prestígio da posse ou o seu valor monetário.
E no lado esquerdo? Na arrecadação? Nos umbrosos bastidores da loja? Vemos um quadro ser encaixotado. Um quadro que vai ser esquecido e que, no fundo, tal como uma pessoa, irá definitivamente repousar no cemitério das obras esquecidas. Trata-se de um retrato de Luís XIV. Do grande Luís XIV, o "Rei-Sol", senhor absoluto, Deus na terra, dono da França. Insisto: veja-se o contraste entre as duas áreas do quadro: de um lado, a luz, a vida, o luxo, a riqueza, a beleza; do outro, o desprezo, o esquecimento, a morte, o reino das sombras de que fala Homero na Odisseia.
Este quadro, pintado poucos anos depois da morte do rei, não é sobre a sua morte física. Watteau não nos está a querer dizer que a morte do rei está ali simbolicamente representada na morte do quadro. Não, é muito mais do que isso: é uma espantosa alegoria sobre o poder, a glória, a vaidade (Eclesiastes).
Terá Luís XIV, antes de morrer, dito alguma coisa parecida com "Rosebud" e cujo significado ninguém tenha percebido?

4 comentários:

addiragram disse...

Muito obrigada pela reflexão. Muito interessante.

Alice N. disse...

Caro José Ricardo,

Tenho andado a pensar neste quadro e na brilhante e pertinente análise que aqui nos apresentou (como sempre) . Há, no entanto, algumas dúvidas que me assaltam e que tomo a liberdade de aqui partilhar (espero não o aborrecer). São apenas pormenores, mas, se tiverem alguma razão de ser, poderão modificar ligeiramente a interpretação do quadro, embora não alterem, no essencial, o significado simbólico que o José Ricardo nos enunciou.

Em primeiro lugar, o espaço que vemos do lado esquerdo do quadro, e que o José Ricardo identifica como uma arrecadação, parece-me muito semelhante ao do lado direito. Repare-se nas paredes, no chão... Podemos pensar que se trata de um artifício para dotar o quadro de harmonia. Mas há um pormenor que me leva a insistir na questão: trata-se do vestido castanho da figura feminina que está de costas a observar um quadro, à direita. Olhando bem, vê-se que uma ponta do seu vestido passa para o lado esquerdo da tela. Assim, parece-me haver uma continuidade no espaço e não uma verdadeira separação física. Há, no entanto, diferenças óbvias entre cada um dos lados, já referidas no seu texto.

Outro aspecto que me intriga é o casal que está ao lado do baú. Admitindo tratar-se de uma arrecadação e, portanto, de uma cena de bastidores, o que estará ali a fazer esse casal de aspecto aristocrático e tão elegantemente vestido? Quem são essas pessoas? Não serão também clientes que vieram escolher um quadro (admitindo, de novo, estarmos num único e mesmo espaço)?

Reparo ainda na postura do referido casal. A figura masculina, nitidamente, pretende afastar-se e incentiva a sua companheira a segui-lo, estendendo-lhe a mão. Ela, porém, parece hesitante e, embora já se encontre de costas voltadas, o seu olhar parece preso ao quadro que vão encaixotar. Porquê? Quereria ela adquirir um quadro que o seu companheiro rejeitou? Admitindo que sim, este homem e esta mulher não serão então meros clientes. À semelhança do quadro de Luís XIV, estes poderão simbolizar a pertença a dois tempos e pensamentos distintos.

Não deixo de retirar conclusões idênticas às do José Ricardo quanto ao significado simbólico deste quadro (mas sem o seu brilhantismo), com duas ligeiras diferenças: a função do jovem casal e desse risco branco que divide a tela . O risco não representaria a separação entre dois espaços, mas viria dar mais visibilidade ao fosso que divide os que estão agarrados a um mundo velho e aos que estendem os olhos para um mundo novo – mundo velho e mundo novo encarnados no jovem casal aparentemente dividido, no quadro rejeitado e nas obras que são alvo do interesse do público.

José Ricardo Costa disse...

Cara Alice,
Errei, vi mal e, como tal, só poderei estar enormemente agradecido por me ter dado a possibilidade de ter consciência do erro.

Eu explico. Eu vi esta imagem reproduzida, a preto e branco num livro, ficando com a ideia de que eram espaços descontínuos. E o que é curioso é o facto de, mesmo depois de ter visto a imagem a cores e ampliada, ter sido enganado pela minha prévia percepção. Por isso, há coisas que disse e que já não têm qualquer fundamento. Vendo agora melhor, trata-se claramente do mesmo espaço. Sendo assim, corrijo: não se trata de uma arrecadação mas de um quadro que vai a caminho da arrecadação. O que, para o caso, até nem faz grande diferença, ilibando-me um pouco do erro.

A partir daqui, é a sua análise que faz todo o sentido. A linha branca terá claramente o sentido que lhe atribui assim como tudo o resto. Penso, no entanto, que tal não retira validade à minha conclusão quanto ao verdadeiro significado deste maravilhoso quadro, ou seja, a ruptura entre dois tempos assim como uma moral tomada de consciência sobre e efemeridade do poder, da vaidade e da glória mundana.

Um abraço e, mais uma vez, os meus (grandes) agradecimentos pelo modo como veio corrigir o meu erro e, deste modo, ajudar a ver o quadro tal como ele é, para além, claro, do (brilhante) pormenor do casal que também está longe de poder ser desprezado.

JR

Alice N. disse...

Caro José Ricardo,

Muito obrigada, também, pelas suas amáveis palavras e por me ter ajudado a reflectir sobre este lindíssimo quadro.

Realço, de novo, o fundamental desta questão: a mais do que pertinente conclusão que nos apresentou sobre o significado do quadro e a forma brilhante como a enunciou (quando fosse grande, queria ser assim). O que eu referi foram meras questões de pormenor, mas eu, às vezes, sou um pouco "chata" com os pormenores... :)

Gostei muito de conversar consigo sobre o quadro que, desde ontem, não me saía da cabeça.

Um abraço,

Alice Nascimento