14 agosto, 2009

THOMAS GAINSBOROUGH - MR AND MRS ROBERT ANDREWS (1749-50)


Eu sempre olhei para este quadro com um enorme espanto e perplexidade.

Temos uma paisagem rural inglesa em todo o seu esplendor. Uma paisagem belíssima que invoca o poeta, o pintor, o músico, o cineasta que há em nós. Eu não sei escrever poemas, não sei pintar, não distingo um dó de um ré, nunca peguei numa máquina de filmar. Mas sempre que passeio pelo campo consigo perceber o que poderia escrever se soubesses escrever, o que pintaria se soubesse pintar, o que comporia se soubesse compor e, sobretudo isso, o que filmaria se soubesse filmar.

Temos, pois, uma paisagem rural inglesa em todo o seu esplendor. Mas, depois, há como que uma espécie de aquário dentro do qual se encontram aquelas duas personagens. Eles estão ali mas é como se não estivessem. Estão isolados. Demasiado envolvidos na elaboração do retrato.
Eles têm consciência da paisagem. Aliás, não é por acaso que ali estão. Querem ficar para a eternidade enquanto burgueses com posses. E é graças àquele mundo que eles são o que são. Portanto, o seu mundo teria que ali estar.

Mas, depois, surgem de costas voltadas para o seu mundo. É compreensível. Dá-lhes dinheiro, dá-lhes estatuto, dá-lhes as pessoas que para eles trabalham, mas é apenas isso. Aquele mundo de poetas, de pintores, de músicos, de cineastas (a posteriori, claro) não lhes deu docilidade e simplicidade, a imaginação, a criatividade dos poetas, dos pintores, dos músicos, dos cineastas. Veja-se o seu ar austero, a sua pose rígida e formal, os sapatinhos de mrs Andrews sobre a erva. Estão ali como se estivessem numa sala do palácio real à espera de serem recebidos pelo rei. Não há qualquer vestígio de sentimento. Fossem Wordsworth ou Hölderlin pintados neste contexto e não teriam esta pose rígida e convencional. Não apareceriam de costas voltadas para o campo mas a olhar para o campo ou no campo.

Daí o meu espanto e perplexidade. Pelo modo como a natureza é instrumentalizada e domesticada enquanto objecto puramente económico e social, enquanto fonte de lucro e de estatuto. A natureza, enquanto realidade o mais anti-burguesa possível, surge aqui como um sintoma burguês. Eu diria mesmo como projecção de um estado patológico induzido pelo poder do dinheiro e de códigos sociais meramente artificiais e vazios.

Mas agora vejamos o seguinte. Convém não esquecer que este quadro, como todos os quadros, tem um pintor. E é precisamente o pintor que, ao pintar o casal, vê o que o próprio casal não vê. O casal, com o dinheiro que a natureza lhe deu, pagou ao pintor que, ao pintar, vê a natureza que eles não vêem. Pode ser defeito meu, uma espécie de miopia ideológica minha. Mas quer parecer-me que o pintor coloca o centro de gravidade do quadro no seu lado direito. A descentração do casal, ao contrário do que se poderá julgar, está longe de ser uma estratégia para enfatizar a sua posição. Claro que, num primeiro impacto é para o casal que olhamos. Mas, depois, esquecemo-nos dele e o nosso olhar, perde-se finalmente, naquele horizonte na direcção do qual temos vontade de caminhar.
E, neste sentido, contrariamente ao que pretenderia o casal, esta pintura, longe de acentuar a sua superioridade e poder, acaba, sim, por denunciar o pobre e triste aquário em que vivem, entendendo-se melhor, deste modo, as pobres e tristes expressões com que ficaram para a eternidade.

1 comentário:

joao alfaro disse...

Digo, com toda a franqueza, que só aqui encontro a leitura certa e clara sobre pintura. Tudo é bem explanado e atentamente observado com o sentido crítico nobre e grandioso da valorização da obra de arte na vida dos Homens.