12 agosto, 2009

SILLY EPOPEIA

Canta-me, ó Musa, o homem de cabelos cor de jacinto
que saiu do mar enquanto eu me lembrava a tempo
do vocativo do seu nome para que pudesse chamá-lo.
E disse-lhe: “Senta-te aqui a meu lado e eu te darei
Ice Tea e uvas frescas se quiseres, que estás sedento,
em todas as epopeias os heróis estão sedentos e cansados.”
E o homem que vira as cidades de muitos homens
olhou a lata que eu abria e dispôs-se a beber dela.
Ninguém parecia reparar na estranha prancha em que viera,
ninguém parecia ouvir a língua estranha em que falávamos.
E disse-lhe: “Não te lances agora in medias res, que eu sei
das tuas errâncias, sei de Circe, e de Calipso, a ocultadora …”
E ele interrompeu-me: “Não compreendo essas palavras …”
Estava eu bem longe da ordem dos tempos que nem
de tais anacronias me dava conta. E expliquei-lhe:
“Os aedos, ao contarem as histórias dos heróis, nunca pelo
princípio começam, mas pelo meio e só depois
retomam o que deviam ter contado primeiro, ústeron próteron.”
E ele desfranziu a fronte: “Como aprendeste tais coisas?”
“Andei na universidade.” Respondi eu e o homem que falava
em frente à assembleia dos homens franziu de novo a fronte:
“Que é isso?” Fez-me sorrir com tal pergunta. Disse-lhe:
“É uma construção grande como um palácio, mas é mais
do que isso: é uma viagem, longa como a tua que de casa
se parte até chegar, muito depois, aonde queremos chegar.
Pelo caminho há monstros e há perigos, há quem nos
queira mal e há quem nos ajude, há feiticeiras e há
deuses protectores. É uma viagem e nela se aprendem
muitas coisas. Não fora essa viagem e eu não saberia
como estar aqui a falar contigo, ó rei.” E o homem
que muito sofrera olhou-me esperançoso: “Então,
sabes se Ítaca ainda está longe, se Penélope …”
E eu interrompi: “Sim, eu sei qual é o fim da tua história,
mas não to vou contar porque só chegarás a Ítaca,
pensando cada dia como e se chegarás a Ítaca. Nem
tu quererias que fosse de outro modo”. E o homem
dos cabelos cor de jacinto entristeceu e assentiu,
baixando a cabeça. Depois olhou a caixa das cigarrilhas
do Zé Ricardo, de barba de Verão e cuja cabeça
eu lhe mostrara ao longe dentro de água. Disse-lhe o
que era e ele quis provar e eu acendi-lhe o rolinho
castanho que tanto o intrigara. Foi então que resolvi
abrir um pouco a janela do porvir. E, enquanto ele se
engasgava de vez em quando, disse-lhe: “Não tardará e
aportarás a outra praia, nu, desgrenhado e exausto. Hás-de
adormecer sobre a areia e serás acordado por vozes de muitas
raparigas. Uma delas é a filha do rei e chama-se Nausícaa.
Vais dizer-lhe estas palavras com asas …” E ele interrompeu:
“Hei-de dizer-lhe palavras aladas ou palavras apetrechadas de asas?”
“Bem, para falares com Nausícaa convém que uses palavras aladas”
Assim disse e continuei: “Dirás : Eu vi uma vez em Delos, junto
ao templo de Apolo, uma beleza assim, um rebento jovem de palmeira
que se erguia da terra aos céus. Seguiam-me mais de mil homens
pelo caminho que havia de ser o da minha perdição
. Deste modo, a princesa,
agradada das tuas palavras, verá não seres homem de baixo nascimento.”
Ele assentiu e antes de se levantar disse: “ Quando fores a Ítaca …”
interrompendo as palavras dele:” Não irei a Ítaca, não é para lá que faço
a minha viagem.”, disse-lhe. Então, o homem que saira do mar
abriu desalentado os braços:”Como vou pagar-te esta hospitalidade:
este líquido fresco, as uvas, a cigarrilha do Zé Ricardo,
de barba de Verão e cuja cabeça me apontaste ao longe nestas águas?
Em Ítaca, Penélope dar-te-ia linho mais fino do que esse que enrolas à cintura,
no meu palácio há pulseiras de ouro e vejo que gostas de pulseiras? Como
farei? Então, eu pedi-lhe: “Ensina-me, ó rei, como se arma o teu arco.
Os deuses sabem que sei guardar segredos.” O homem dos mil artifícios
olhou-me desconfiado : “Na tua casa há um mégaron onde alinhas
doze machados para através deles disparares uma seta certeira?”
E eu respondi: “ Não te inquietes, ó rei. Juro-te, por Zeus, por Atena
de olhos garços, que momentos há em que vejo, de súbito,
alinhados os doze machados. Então Apolo, que embirra comigo
porque sempre estive do lado de Cassandra, surge irónico e
deixa-me o teu arco nas mãos. Eu tento armá-lo, uso de todas as
técnicas com as quais se pode armar um arco, mas nunca consigo.
Acredita-me, ó Rei, eu tenho muitas provas do arco para superar.”
Inclinou-se para mim, não estivesse alguém nas toalhas adjacentes
atento a palavras ditas em grego homérico e, meticuloso,
disse, passo por passo, o que devia fazer para armar o arco dele.
Assim os deuses me protejam. Fazia-se tarde, o mar acinzentava
e Eólo soprava. Ulisses pegou na pesada prancha feita dos troncos
que cortara na ilha de Calipso e voltou ao mar, acenando-me de longe.
Então, uma mulher que de costas estivera durante todo tempo,
afastada, mesmo na nossa frente, virou a cabeça e sorriu.
E eu, mal reconheci Atena, de olhos garços, deixei de a ver.
Chegou o Zé Ricardo, com a barba de Verão salgada do mar
e disse: “Estavas a falar com alguém conhecido?”. “Ora, sabes
o que dizem ser o mal da Nazaré: encontra-se a cada passo
gente conhecida.” Assim respondi.

2 comentários:

Micha disse...

Deliciosa, Ivone! Espero que este seja o primeiro episodio de muitos que por la, nas ferias, se passaram. Em espera....

jl disse...

Mas que é isso, Ivone?

Nugae?
Mas muito pouco...

Que epopeia!
Que recôndito enlevo!...

(Não. Juro que não vou dizer mais nada!)

abrs