26 agosto, 2009

O PROFESSOR INVISÍVEL


" H. G. Wells is the last preacher of the morality of the Enlightenment, of the faith that the great mass of prejudice and ignorance and superstition, and the absurd and repressive rules in which it is embodied, economic, political, racial and sexual, would be destroyed by the new elite of scientific planners." Isaiah Berlin, The Bent Twig - On the Rise of Nationalism


"O Homem Invisível" é, certamente, uma das histórias mais conhecidas do escritor inglês que, durante uma fase da sua carreira, terá sido marcado por desvarios utópicos que viam na ciência e na técnica um meio de salvação da humanidade. Há, no entanto, romances seus que apontam num sentido contrário, ou seja, mais distópicos do que utópicos.

A frase de Berlin permite estabelecer uma ligação muito interessante entre o cientismo sociológico de Maria de Lurdes Rodrigues e de toda uma tresloucada e perigosa matilha de cientistas da educação, e a história do homem invisível. A história descreve um cientista que, querendo mostrar serviço, realiza uma experiência através da qual se torna invisível. Só que, depois, já não consegue mais voltar à sua vida anterior, tornando-se, a partir daqui, um homem amargurado e revoltado.

Ora, o que está a acontecer na actual escola é um processo semelhante, só que, neste caso, os seres invisíveis são os professores. De facto, os professores, enquanto pessoas, indivíduos, personalidades, perderam cada vez mais a sua visibilidade pessoal, tornando-se acéfalos aplicadores de padrões pedagógicos uniformizadores, expelidos directivamente das cabeças que nos governam e nos doutrinam. A própria valorização cada vez mais nauseabunda da informática, do powerpoint, da internet, do Moodle, dos trabalhinhos de grupo, dos projectos, implica cada vez mais uma desvalorização e crescente invisibilidade social, pedagógica e simbólica dos professores. Os próprios professores, claro, são muitas vezes culpados, inebriados que ficam com as luzinhas, os botões e os relatórios. Mas tudo isso é areia para cima da sua sepultura, à medida que, a pouco e pouco, vão sendo enterrados vivos.

O resultado disto, como no "Homem Invisível", só poderá ser cada vez mais revolta e ressentimento. Mesmo por parte daqueles que, hoje, gostam de ser mais papistas do que o papa. Não nos esqueçamos que há aqui um pormenor curioso na história de Wells. O cientista, através da sua experiência, quis adquirir visibilidade através da invisibilidade. Seria bom que os professores entendessem que quando finalmente perceberem que será desejável terem uma presença sólida e firme e, para isso, quiserem tomar um antídoto que os torne de novo visíveis, este poderá não funcionar.

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