22 agosto, 2009

O CHICOTE


Esta notícia do PÚBLICO apanhou-me dias depois de ter lido um dos grandes clássicos do liberalismo: "Da Liberdade dos Antigos Comparada à dos Modernos", de Benjamin Constant.

Em linhas gerais, a tese do francês é a seguinte: a liberdade dos antigos era uma liberdade meramente política e não individual. Ou seja, os cidadãos participavam na vida da pólis através de discussões públicas, deliberações, votações, pronunciamento de julgamentos, exame das contas. Só que a vida privada era completamente vigiada, carecendo esses cidadãos de liberdade individual. A liberdade que, hoje, continua a ser um dos aspectos mais valiosos das sociedades cristãs ocidentais (embora pouco o deva a essas mesmas igrejas cristãs, menos ainda, à desde sempre reaccionária igreja católica).

Esta rapariga não pode beber cerveja porque vive num país cuja religião proíbe o consumo de álcool. E, ao ter bebido, vai ser chicoteada.Duas coisas. No nosso mundo ocidental, cada um pertence à religião que bem entender ou até a religião nenhuma. Depois, mesmo fazendo parte de uma religião que proíba X ou Y, a sociedade nada tem que ver com o facto de ela fazer X ou Y, seja comida, bebida, sexo, normas de vestuário, estilo de vida, etc. Será apenas entre essa pessoa e a sua religião.

É muito bom sinal que este tipo de julgamento nos pareça absurdo. Mas convém não esquecer que durante séculos e séculos também foi assim que vivemos por aqui. E foi graças à Filosofia, sim, a homens como Locke, Espinosa, Hume, Montesquieu, Voltaire ou Constant que hoje não conseguimos ler estas notícias sem um enorme sentimento de perplexidade.

2 comentários:

José Borges disse...

Mas não deixa de ser preocupante que cada vez mais as pessoas da e na nossa sociedade abram mão desse bem tão precioso que é a existência de uma esfera de vida privada onde somos livres de fazer X e Y, ainda que digamos ao mundo que somos contra os actos X e Y. A discrição será sempre uma virtude dos amantes da liberdade.

addiragram disse...

Eu procuro nunca me esquecer e faço por o lembrar, sempre que é oportuno, àqueles que se julgam em mundos totalmente diferentes.