26 agosto, 2009

NEGLIGÊNCIA MÉDICA

Eu estou sempre a dizer que nunca mais volto a falar de escola, ensino, educação, Maria de Lurdes Rodrigues, Valter Lemos, Jorge Pedreira e outras pessoas igualmente não recomendáveis como Margarida Moreira, tudo eloquentes emanações do PS de Sócrates. Mas, ontem, depois de quase ter vomitado ao ver esta fotografia, resolvi voltar ao assunto.
Um dos factores que têm conduzido à destruição do ensino e de um certo bom senso educativo, resulta de uma antiga questão filosófica: a diferença entre as Naturwissenschaften e as Geisteswissenschaften, ou seja, as ciências da natureza e as ciências do espírito. A degradação e miséria do ensino actual resulta precisamente de uma ideia aparentemente louvável, mas não só epistemologicamente errada como também social e moralmente suicida: transpor para o campo das ciências humanas, os ideais de objectividade, universalidade, quantificação e medição das ciências experimentais.
Ora, se a natureza pode ser racionalmente controlada graças a conceitos como o de causalidade e previsibilidade, porque não fazê-lo também no campo da educação? Se a Física e a Química tiveram sucesso graças a fórmulas implacáveis, porque não aplicar também certas fórmulas universais e objectivas na educação? Até porque existem os físicos e químicos da educação: os pedagogos, os cientistas da educação.
A partir daqui, os professores só terão que se imbuir deste espírito "rigoroso", "objectivo", "cientificamente testado" e teorizado em teses de doutoramento de cientistas da educação em contacto directo com o poder político e os órgãos executivos das escolas, concretizando uma espécie de "jurisprudência educativa e pedagógica". Deste modo, cada professor terá que abdicar da sua individualidade e agir conforme os padrões cientificamente aplicados pelos teóricos que sabem tudo apesar de muitos deles nunca terem dado uma aula. Cada professor deve pensar mesmo em gerir a sua prática lectiva com base nas chamadas "evidências", ou seja, tudo aquilo que pode ser observado e quantificado.
E eis como foi criado, politicamente, o pesadelo que se vive actualmente na escola portuguesa. Começando tudo com um desvario epistemológico: combater alguma má fama de que padecem as ciências sociais e humanas, conferindo-lhes os níveis de eficácia das outras ciências. Neste sentido, um sociólogo pensa estar para a sociedade como um médico para um hospital.
Infelizmente, nem sociólogos, nem cientistas da educação poderão ir a tribunal acusados de negligência médica.

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