19 agosto, 2009

NAZARÉ

1. Há quem goze comigo pelo facto de eu fazer praia na Nazaré. Por que é que eu não vou para o Alentejo? Para aquelas praias, onde está uma pessoa aqui, outra ali, outra acolá, e pronto, não está mais ninguém. Por que razão me vou eu meter numa praia cheia de gente, popular, cheia de turistas? Sacrilégio dos sacrilégios, misturar-me com pessoas de classes sociais desfavorecidas que têm o seu domingo de glória na Nazaré antes de regressarem à enxada, à oficina, à fábrica? Ora bem, eu vou para a Nazaré porque tenho que ir para a Nazaré. Não sou eu que escolho a Nazaré, foi a Nazaré que me escolheu a mim Muitas das recordações mais antigas que eu tenho estão relacionadas com a Nazaré. As brincadeiras na areia e no interior das barracas coloridas, as mulheres dos bolos e os homens da bolacha americana, as poças entre as rochas ainda antes de saber nadar, as noites nas esplanadas, os gritos ensurdecedores das peixeiras por um naufrágio, as peregrinações ao sítio e ao farol, as estreitas ruas cheirando a peixe grelhado, a cor da bandeira para saber se podia ou não tomar banho, a minha mãe correndo pelas ruas da Nazaré atrás de mim para eu comer uma banana, já mais tarde, as miúdas giras que depois eram integradas num grupo. Só na rua Adrião Batalha, em diferentes anos, morei em três casas. Eu já terei subido e descido aquela rua centenas de vezes e gosto de continuar a subir e descer. Já não a fazer rallies entre o passeio e a estrada mas simplesmente a subi-la e a descê-la.

2. Hoje, na antecâmara da velhice, gosto de estar deitado na areia, de olhos fechados, ouvindo os mesmos sons de sempre, sentindo o mesmo sol de sempre. Estou de olhos fechados e, mesmo sabendo que o mundo já não é o mesmo, sei que o mundo continua a ser o mesmo.

3. Com estas fotografias quis exprimir o que se passa na minha cabeça quando, deitado de olhos fechados, regresso ao passado mais remoto. Como se, de repente, saísse de 2009 e fizesse uma viagem no tempo até meados dos anos 60. Estas imagens são as imagens de alguém que se aproximou da realidade passada mas, naturalmente, sem a nitidez de uma presença física actual. Vejo, estou lá perto mas já não a posso ver como via pois o que está morto já não se vê. Nem o que está morto fora de nós, nem o que está morto dentro de nós. Estas imagens estão para a minha realidade passada como a verdadeira realidade inteligível para o prisioneiro que se liberta da caverna de Platão e começar a vislumbrar essa realidade mas de um modo ainda doloroso para os olhos. Aqui aparecem as mesmas barracas de sempre, as mesmas peixeiras de sempre, os mesmos veraneantes de sempre, a mesma paisagem de sempre, a rua Adrião Batalha por onde eu fazia os meus rallies entre o passeio e a estrada. E até a minha mãe correndo atrás de mim pelas ruas da Nazaré para eu comer uma banana.




5 comentários:

marteodora disse...

Compreendo,
acontece-me mais ou menos o mesmo com o ALgarve.
Não tenho a culpa de gostar de água salgada a uma temperatura que me permita entar pelo mar sem sair dentro de um cubo de gelo e, dessa forma, andar sempre de molho.
Além disso, também não tenho a culpa que a ondulação e as correntes do mar do Sul (à excepção dos ares do Levante)sejam tão calmas que, ao nadar, não corra o risco de ser arremessada violentamente contra a areia, com o risco evidente de partir a coluna.
Ah, e há ainda a questão meteorológica...é que no Algarve não há equívocos quanto à Estação do ano na qual nos encontramos: Verão é Verão e não uma Primavera fresca. É difícil passar dois dias (ou mais) à espera que o tempo "levante".
Acrescento que são os meus pais e os meus tios os culpados desta situação.
Eu não tenho qualquer responsabilidade sobre o assunto.

addiragram disse...

Parabéns! Uma história de amor, contada pelos olhos de quem tem as memórias bem vivas!

draaninhas disse...

Desde o primeiro minuto acompanho estes ponteiros que marcam na blogosfera um ritmo interessante e refinado, na inteligência,no humor e no conhecimento. Hoje não resisto a deixar um comentário, porque embora prefira de longe água morna, a Nazaré também a mim me escolheu. É ali que tenho muitas das recordações de infância, adolescência, juventude e mesmo que não passe férias, volto sempre nem que seja por uns dias. Não é in, eu sei, mas é especial, porque tem algo das nossas vidas. Há rituais que se repetem, rotinas que nos fazem bem,lugares e olhares que conhecemos tão bem que nos reconfortam. Há uma infinidade de praias na região que não conheço muito por culpa desta paixão: na hora de decidir vamos sempre para a Nazaré. Portanto, JR acredite que não é caso único. A Nazaré escolheu muita gente.

jl disse...

Deixe que pense, que diga, que fale...
Mas não foi, desde sempre, a Praia da Nazaré a praia dos ribatejanos?

Só muito mais tarde vieram as modernices dos mares do Sul ou da costa alentejana...

Ah!
E as suas fotos com aquelas desfocagens tão características mas tão intimistas...

west disse...

Um texto que me faz recuar nos anos, não para meados de 60, mas para finais de 70 e 80's. Agora com 40 anos também recordo aquilo que sou e que vivi nessa altura, na minha terra, na terra que, não sendo dos meus pais, é a minha, minha para sempre. Como eu me identifico com o texto, apesar de ter estado sempre aqui. E tenho saudades...
Belas fotos. A desfocagem faz com que se perceba aquele pensamento, de olhos fechados, deitado na areia ao sol que se repete ano após ano. Lindo. Parabéns.