24 agosto, 2009

A MINHA COLECÇÃO DE POSTAIS


Tive um ataque de pânico. Estava muito sossegadinho e, de repente, pensei: " A minha colecção de postais?". Foi a minha única colecção até hoje e, durante a minha infância, um dos meus grandes entusiasmos. Tinha já umas boas centenas, vindos de todos os cantos do mundo. Havia pessoas que sabiam da minha colecção e davam-me os seus postais para a aumentar. Havia da América, África, Índia, China, Brasil (na altura, um país exótico). Havia postais de pessoas da minha família que me escreviam só para eu poder receber mais um postal. E havia postais de férias de pessoas que já morreram, numa altura em que não havia telefones como hoje, telemóveis ou internet. Lembro-me mesmo de haver postais dos anos 20 e 30. Eram os de que gostava menos por serem a preto e branco. Enfim, não tinham gracinha nenhuma, sentia eu com a minha cabeça de criança que só tinha olhos para as cores. Posso também dizer que muito do que sei hoje do mundo aprendi nesses postais. Capitais, monumentos, paisagens, ambientes.

Anos mais tarde, a adolescência trouxe outros interesses e uma maior ligação ao presente e ao futuro do que ao passado. E esqueci completamente a minha colecção de postais. Desprezei completamente a minha colecção de postais. E nunca mais tinha voltado a pensar nela. Estava apagada na minha memória.

Pensei hoje. E daí o meu ataque de pânico: eu não sei da minha colecção de postais. Ninguém sabe da minha colecção de postais. Só tenho uma explicação. Num daqueles dias, há muitos anos, em que limpava a arrecadação de coisas velhas, devo ter achado que aquela colecção já não teria gracinha nenhuma, enfim, passatempo de crianças, e devo tê-la deitado fora tal como deitei fora singles, LP's, livros da escola primária, cadernos meus do tempo do liceu, brinquedos com 40 anos e outra velharias inúteis que apenas serviam para aumentar o lixo da arrecadação.

Esta triste história pode ter igualmente uma leitura política. Há, no espírito revolucionário, um insaciável desejo de apagar a história e um ímpeto inovador que muitas vezes sacrifica a ligação a esse passado. O revolucionário não gosta do passado, quer apenas ser um original e criativo cientista no seu laboratório de futuros. E falo não apenas em revoluções propriamente ditas mas também em coisas tão prosaicas como ter acabado com os cafés antigos de mesa de pedra ou a destruição de aldeias inteiras cujas casas eram feitas com materiais tradicionais. É o progresso? Não. Nos países mais desenvolvidos do mundo continuamos a ter cafés e casas tal como eram há 200 anos, casas essas, hoje, muitas delas habitadas por pessoas com elevado poder económico.

É, por isso, preciso ter muito cuidado com o espírito revolucionário. Para que não aconteça às sociedades e àquilo que é o espírito objectivo dessas sociedades (cafés, aldeias, festas, etc), o mesmo que aconteceu à minha colecção de postais.

2 comentários:

addiragram disse...

Muito provavelmente ainda a vai descobrir...Muito dificilmente alguém se desfaz das memórias afectivas.A minha experiência é que penso que perco, mas acabo por descobrir. Não acredito que o espírito revolucionário tenha atingido um tão grau de radicalidade.

José Ricardo Costa disse...

Bem, quero acreditar que sim. Que não iria ter coragem de deitar fora. Mas não sei se vou ter essa sorte.

JR