21 agosto, 2009

A MERCEARIA

Aguarelas de Turner

No Aguarelas de Turner podemos ler este e este post sobre uma mercearia nas Caldas da Rainha: a mercearia Pena. Independentemente da qualidade estética desta mercearia que, pelas fotografias, me parece estar longe de uma mercearia convencional, há, hoje, na própria ideia de mercearia uma enorme atracção. Como explicar?

A nossa actual atracção pelas mercearias não anda longe da atracção das crianças quando chegam ao Portugal dos Pequeninos, em Coimbra. Um sentimento de familiaridade perante o que é pequeno. O oposto do que sentimos em espaços tão diferentes como o Palácio de Versalhes, o convento de Mafra ou a nave central do mosteiro de Alcobaça, mas que têm em comum o facto de nos reduzirem à nossa insignificância. Estamos ali como um pequeno bote na imensidão do oceano (Nietzsche usa admiravelmente esta imagem em A Origem da Tragédia para se referir ao dionisíaco). Há, portanto, como que uma dissolução do eu perante um espaço que o esmaga, uma total descontinuidade entre o eu e o espaço, o qual, deste modo, se transforma em pura exterioridade ou transcendência.

O que se passa no Portugal dos Pequeninos é precisamente o contrário. Como que por magia, estamos ali como Gulliver em Lilliput. Não esmagamos o espaço como esmagamos uma formiga no chão pisado por nós, mas também não somos esmagados por ele. Passa, sim, a haver uma única escala que une o espaço e o sujeito numa mesma dimensão. A casa quase que deixa de ser exterior ao sujeito, passando a ser uma extensão do seu corpo. A nossa visão da casa é quase a mesma que temos quando olhamos para o nosso corpo. É um exterior mas um exterior que está contido no interior. Ora, dentro de uma mercearia, ao contrário do hipermercado, há uma espécie de equilíbrio apolíneo idêntico ao que se passa no Portugal dos Pequeninos. Um espaço que está para o hipermercado como um pequeno e tranquilo lago está para o oceano.

Há ainda, na mercearia, um outro aspecto importante. A sua pequenez acaba por dar mais relevo ao seu recheio. Enquanto na enorme prateleira de um hipermercado existe um certo efeito hipnótico e de alguma desorientação perante a massificação dos produtos, na pequena merceria, pelo contrário, a escassez e selectividade dos produtos acaba por torná-los também mais familiares. Na verdade, um pacote de massa numa mercearia tem um impacto diferente do que terá num hipermercado.
Não é por acaso, aliás, que nos hipermercados, quando por vezes há umas feiras de vinhos, queijos, enchidos, tentam imitar a velha mercearia: bancas pquenas e acolhedoras e o recurso a materiais "nobres" como as cestas, a palha, a madeira, panos, etc. Um queijo, ali, tem um impacto completamente diferente do queijo na habitual montra da charcutaria.

Por estas razões, a mercearia é, sem dúvida, um espaço bem mais interessante do que um hipermercado. No entanto, pelas razões associadas à vida quotidiana das pessoas e que toda a gente conhece, não sei se a velha mercearia poderá existir durante muito mais tempo.

1 comentário:

addiragram disse...

Caro Ricardo,

a análise filosófica que fez da relação do ser humano com a dimensão do espaço envolvente tem toda a legitimidade e cabimento. Contudo (há sempre um contudo...)discordo da analogia com o Portugal dos Pequeninos em relação às crianças e discordo, porque tenho bem presente a sensação que tive da minha primeira ida ao Portugal dos Pequeninos. Aquele lugar não era um lugar a sério, era um lugar faz de conta. Nada se encontrava do que se encontrava no interior de uma casa. Acabava por ser um decepção. Brincava-se melhor quando se brincava em casa às lojas, aos pais e às mães, etc. Ora a mercearia foi sempre um lugar a sério. Havia sempre um pouco do que se precisava, mesmo que não houvesse a diversidade de um supermercado. Depois, era o prazer de se poder mexer à vontade e de se ser atendido pelo nome.A mercearia Pena,sobreviveu, saindo do espaço convencional da sua clientela antiga e transformando-se numa mercearia requintada.Contudo, os seus preços são completamente legítimos e bem longe dos que se encontram nas mercearias finas de Lisboa. Depois, temos ainda o prazer de descobrir, tal como quando visitamos uma velha livraria,aquelas "coisas" que fizeram parte do nosso quotidiano infantil-quadradinhos de marmelada, chapéus de chuva de chocolate, rebuçados antigos, bom bonbons regina ...Acredito que esta mercearia especial vai poder prosseguir a sua caminhada...Vale a viagem às Caldas...
E um grande obrigada por mais um post interessante e estimulante.