18 agosto, 2009

À LA RECHERCHE DU TEMPS PERDU


Entro no blogue do Jorge e, mal dou com esta imagem, fico com a madalena toda ensopada de chá.

Quando eu era garoto, não havia o culto privado do quarto como hoje. Significa isto que todos os discos lá de casa estavam numa única e enorme gaveta da sala. Os discos de música clássica do meu pai, os discos de Rock dos meus irmãos e alguns discos meus infantis. Tanto LP's como singles estavam naquela enorme gaveta.

Na altura, eu teria uns 7 ou 8 anos, era ainda pouco dado a interesses musicais. Mas lembro-me perfeitamente (depois de ver esta capa, poderei dizer que me lembro como se fosse hoje) de passar horas, em inúmeras vezes, olhando as capas dos discos e a estudá-las ao mínimo pormenor. Os discos passavam pelos meus dedos como se fossem folhas de um livro e, sempre que o "texto" me interessava, parava para o ler. A capa acima, uma das que estava dentro da gaveta, há-de ter passado pelos meus centenas de vezes. Depois, mais tarde, o disco deixou de ser apenas uma mera capa para passar a ser também um pedaço de vinil preto que passei a colocar no gira-discos.


Depois de ter visto hoje esta capa não posso deixar de sentir um sentimento de perda e escuridão. Quantas sensações, emoções, pensamentos, associações que, durante anos, encheram os nossos dias, não estarão hoje perdidas no nosso poeirento e escuro sótão mental? De quantas folhas mortas, flácidas, molhadas e amarelecidas que, outrora, nos deram sombra e abrigaram, serão feitos os nossos esquecimentos?

Qual será o tamanho dos buracos do nosso tecido mental feitos pela traça do esquecimento? Qual o peso do vazio na nossa identidade? Quanto há de nós mesmos de que nós não temos consciência?

1 comentário:

addiragram disse...

Uma questão de peso, de facto. Mas o nosso esquecimento, apesar de tudo, não tem a gravidade que se pode pensar. Se estivermos em contacto, com mais frequência, com as recordações da nossa infância, elas dançam dentro de nós, de uma forma mais viva e mais produtiva para o nosso presente. O João Villaret também fazia parte dos discos dos meus pais. Mais tarde passou a integrar, em C.D. a minha discografia.