28 agosto, 2009

JÁ NÃO ANDAM FAUNOS PELOS BOSQUES

Diana e as suas Ninfas Surpreendidas por Sátiros

Max Liebermann, Mulher com Cabras nas Dunas


Esta pintura de Max Liebermann bem podia ser aproveitada por um movimento ecologista.

Comparêmo-la com a de Rubens. A pintura de Rubens exprime uma natureza ainda habitada por sátíros e ninfas. Sátiros e ninfas que, juntamente com toda uma multidão de figuras mitológicas, vieram substituir os martirizados ou beatos santos da Europa Medieval.

Ora, a pintura de Liebermann, tendo, uma mulher e duas cabras é um bom sintoma de um tempo que "desencantou" a natureza, de um tempo que substituiu a jovial imaginação por uma visão meramente funcional. Os sátiros transformaram-se em simples cabras subjugadas a uma mulher que deixou de ser ninfa.

Quando eu falo no aproveitamento desta pintura pela "ideologia ecologista" é num sentido apenas pedagógico. Mostrar que o pensamento ecológico não deverá estar apenas reduzido a uma visão funcional da natureza. Não devemos apenas amar respeitar a natureza porque é fundamental para a nossa saúde, para o nosso equilíbrio e bem-estar. Ou pensar na natureza enquanto espaço para praticar desporto ou merendar à sombra das árvores. Isso não é ecologia. Está para a natureza como a DECO está para o consumo. Eu fui em tempos assinante da Proteste, a revista da DECO. Deixei de o ser porque sempre que a lia sentia-me no papel de consumidor. E eu não queria ser um consumidor.
Do mesmo modo, sempre que ouço um ecologista, sinto que está a falar enquanto consumidor da natureza para consumidores da natureza. Ora, a relação mais pura e genuína que se pode manter com a natureza é a de carácter estético. Um pintor, um músico, um poeta, um fotógrafo, pode ser, à partida, muito mais ecologista do que um ecologista propriamente dito que vem falar na qualidade da água, da camada de ozono e na energia eólica. Não estou a desvalorizar tais aspectos. Não há estética que sobreviva a uma natureza porca e mal-cheirosa. O que eu quero dizer é que a verdadeira aprendizagem ecológica deve ser feita através da estética, a qual envolve a sensiblidade, os sentidos, a imaginação, a criatividade.
Eu não acho que seja possível voltar a povoar a natureza de sátiros e ninfas. Cada coisa no seu tempo. Mas também não devemos estar condenados a reduzir a natureza a uma simples fonte de sustento económico ou que promove o bem-estar de consumidores que precisam de descansar ao fim-de-semana.

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