16 agosto, 2009

GUERRA E PAZ-XLVI


"Entediar-se, preocupar-se e tramar intrigas era próprio do quartel-general, mas no exército profundo não se perguntavam sequer aonde iam e para que iam". Vol 3, Parte 1, cap.12

Eis, pois, o exército profundo: ir, sem saber para onde, ir, sem saber para quê.
Aqui, neste bocadinho, temos a diferença entre a filosofia grega e a tragédia grega. O filósofo vive, serenamente, no quartel general: pensa, interroga-se, diz mal de outros filósofos. Na tragédia, pelo contrário, tal como na Odisseia ou na Ilíada não passamos de joguetes nas mãos do destino e dos caprichos dos deuses. O exército profundo não pensa: limita-se a matar e a morrer sem saber porquê.

1 comentário:

José Trincão Marques disse...

«De facto, nunca mais se falara do morto; afinal de contas, os soldados são soldados precisamente para morrerem em defesa do Rei. Mas a imagem daquele corpo esventrado vinha-lhe muitas vezes à memória como se pedisse para lhe darem paz da única forma que estava ao alcance do príncipe: superando e justificando o seu verdadeiro martírio por uma necessidade geral. Porque morrer por alguém ou por uma coisa, está certo, é natural; mas tinha de se saber ou, pelo menos, ter a certeza de que alguém sabe por quem ou por que se morreu; era isso que aquela face desfigurada perguntava; e era precisamente aí que começava a bruma».
(in O Leopardo, de G. Tomasi di Lampedusa)