25 agosto, 2009

GUERRA E PAZ - XLIX



"Nessa floresta de bétulas e abetos, à direita da estrada, brilhava ao sol a cruz e o campanário longínquos do Mosteiro de Kolotcha. Por todo este horizonte azul, à esquerda e à direita da floresta e da estrada, viam-se aqui e ali fogueiras fumegantes e massas indefinidas de tropas, nossas e inimigas".

Já não me lembro bem. Teria uns 10 ou 11 anos quando, em Torres Novas, vi uma versão soviética do Guerra e Paz. Juntamente com o Menino Selvagem, de Truffaut, foi um ritual de passagem entre a infância e a vida adulta.
O filme tem uma duração de oito horas. Já não me lembro se em Portugal passou em duas ou três partes. Julgo que foram duas pois lembro-me perfeitamente de cada uma delas durar uma eternidade.
Houve muitas coisas no filme que não entendi. Enfim, aspectos históricos, políticos e até sentimentais. O filme era muito parado para os padrões habituais. Era ainda falado numa língua estranha. E a técnica narrativa estava muito, mas mesmo muito longe dos cânones americanos.
Mas quando foi anunciada a segunda parte do filme, presumo que semanas depois, tive o desejo de lá voltar para mais uma eternidade de filme. Porque havia ali coisas que me deixaram, lembro-me bem, absolutamente deslumbrado e que haveriam de marcar a minha futura relação com o cinema. Uma delas é o modo muito mais profundo, introspectivo e envolvente de mostrar a guerra, a morte, o sofrimento. Outro ainda, do qual me lembro bem, era o constraste entre a beleza luminosa da paisagem natural, campestre, rural e a sujidade da guerra feita de fumo negro, sangue, cadáveres, ruído ensurdecedor. Um enorme apuramento estético que haveria de marcar não só a minha relação com o cinema mas também com a pintura e a fotografia.
Lendo agora o livro, mais concretamente, passagens como esta que aqui trago, não pude deixar de invocar a memória deste absolutamente fabuloso filme soviético que tenho que forçosamente voltar a ver.

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