27 agosto, 2009

GUERRA E PAZ - L

"Efectivamente, Katerina Petrovna desatou a tocar valsas e «escocesas», o que proporcionou ao hábil Nikolai a possibilidade de encantar ainda mais a sociedade provinciana. Espantou mesmo toda a gente com a sua maneira particular e desembaraçada de dançar. Nesta noite, ele próprio se sentiu algo espantado com a sua maneira de dançar; é que, em Moscovo, nunca dançava assim e consideraria mesmo inconveniente e mauvais genre esta forma demasiado livre de dançar; mas aqui sentia a necessidade de os surpreender a todos com qualquer coisa de extraordinário e que os levasse a pensar que era uma coisa natural nas capitais mas ainda desconhecida na província."

Nikolai é um aristocrata de Moscovo que, por causa da guerra, está na província. Dança mal, demasiado à vontade, porque está na província. Em Moscovo dança aprumado, de acordo com o seu estatuto e a sofisticada engenharia dos bailes. Ora, as pessoas da província, vendo assim dançar um aristoctata de Moscovo, pensam que é assim qu'il faut danser e passam a dançar dessa maneira, julgando-se assim muito evoluídos e emancipados.

Ora, é precisamente este tipo de mecanismo que funciona muitas vezes na relação entre os países pobres e atrasados como Portugal e os países modernos e evoluídos como os Estados Unidos, a Inglaterra, a França, a Finlândia ou a Dinamarca. De vez em quando, esses países lembram-se de inventar modas bizarras. Como são ricos e modernos, tais modas, para os pobres, não são bizarras mas modas "dos" países ricos e modernos. Os países pobres e atrasados, vendo tais modas, passam a segui-las também. Mas como naquele baile de Guerra e Paz, tal não passa de uma ilusão com más consequências para os mais pobres. Enquanto os ricos se reorganizam, virando as costas às modas bizarras para regressarem à normalidade, os pobres, coitados, precisarão de muito mais tempo e sacrifício até perceberem que estavam errados. Ou então, continuam a viver errados. O que é bom para os ricos.

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