17 agosto, 2009

COROT- LA TOILETTE


Nos últimos dias em que, ao lado do marido, teve que posar para Thomas Gainsborough para este poder, finalmente, concluir o quadro que celebrou o casamento do casal, Mrs. Andrews, já não suportava mais aquela rígida verticalidade, a rigidez do pescoço.
Durante o processo em que o pintor inglês ia pintando o quadro que lhe permitiu gravar com letras de oiro o seu nome na história da pintura, Mrs Andrews, sempre que podia, virava-se para trás ou sorria para o pintor mas de imediata era convidada a regressar à sua hirta e formal pose de senhora casada com o respeitado Mr. Andrews.
Porém, alguns dias depois do quadro estar concluído, e aproveitando uma saída do marido para fechar um negócio numa localidade a 35 milhas da sua propriedade, Mrs Andrews não resistiu ao apelo do imenso paraíso bucólico para o qual, devido à rigidez protocolar do retrato, o seu olhar estava impedido de se virar.
O que nós vemos no segundo quadro, pintado por Corot e enigmaticamente intitulado La Toilette, é a satisfação de um enorme desejo que, lentamente, foi secretamente crescendo no peito de Mrs Andrews durante os difíceis dias ao lado do marido. Falou com uma das criadas em quem tinha mais confiança e com a sua amiga mais íntima e partiram para a floresta a fim de materializar o seu devaneio.
Do lado direito, ao fundo, vemos Lisa, a sua grande amiga, lendo as Metamorfoses de Ovídio mas sem deixar de vigiar o caminho e de estar atenta a todos os pequenos sinais que possam trazer perturbação à tranquilidade do momento. Na parte central, temos então Mrs. Andrews sendo composta por Sarah, a sua fiel criada. Sem os sapatinhos que tanto lhe apertavam os pés enquanto posava, sem aquelas roupas desconfortáveis que a impediam de se concentrar no primaveril chilreado dos pássaros, sem o marido a seu lado sempre a repreendê-la.
O que faz então ali Mrs Andrews? Talvez ingenuamente, mas fruto das suas leituras que, como a Quixote, a fizeram viajar para os territórios mais longínquos da imaginação, Mrs Andrews aguarda a chegada de dois ou três faunos com os quais possa beber e dançar como se, de repente, se transformasse numa ninfa da Renascença. Por isso quer estar bonita, precisa de estar bonita, tendo que encontrar na sua natureza a mesma identidade espontânea que, estando perdida no mundo dos homens, se mantém viva e fresca no mundo dos faunos.
Infelizmente, não acredito que os faunos tenham aparecido. Mas quero acreditar que, ter simplesmente passado aquela tarde sem os seus sapatinhos bem dentro da floresta à qual, durante tantos dias, teve que virar as costas enquanto era retratada ao lado de Mr Andrews, já terá valido a pena.

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