22 agosto, 2009

AS CIDADES INVISÍVEIS

Regent Street, Londres

A autora desta reportagem, decidiu meter-se com Alain de Bottom (a viver uma semana no aeroporto de Heathrow), passando um dia na estação de autocarros de Edgware (uma das mais movimentadas de Londres) metendo conversa com as pessoas que por lá passam, levando-as a falar sobre as suas vidas tristes e cinzentas.

Não pude deixar de pensar na contradição entre isto que li e o facto de, sempre que visito uma cidade, vir de lá com a sensação de que era ali que gostaria de viver. Seja no Porto, Braga, Évora, Coimbra, Faro, Madrid, Toledo, Edimburgo ou... Londres.

Isto tem uma explicação que não se esgota apenas na beleza e naturais atractivos da cidade. Explica-se pelo facto de, ao visitar essa cidade, existir um forte sentimento de evasão. Se estamos lá é porque estamos de férias ou de fim-de-semana. Estamos longe do trabalho, da rotina diária e nem sequer nos passa pela cabeça pensarmos na conta da electricidade e no spread do empréstimo. Estamos ali para ver e há claramente uma predisposição do espírito para usufruir dos espaços. Andamos pela baixa da cidade, vamos ao museus, visitamos os monumentos, parques e jardins, comemos em restaurantes. Ou simplesmente flanamos pelas ruas, sem eira nem beira.

Ora, isto induz naturalmente uma relação utópica com a cidade. Aquela nossa cidade não é a cidade real mas a cidade onde vivemos a vida que idealmente gostaríamos de viver. Sem preocupações, horários, responsabilidades. Uma vida apenas de prazer, divertimento, contemplação, cultura. Nós não andamos naquelas ruas como quem vai de casa para o trabalho ou do trabalho para casa para ter que ainda fazer o jantar, arrumar a cozinha, tratar dos filhos e depois adormecer no sofá a ver televisão. Andamos naquelas ruas, praças, avenidas apenas para andarmos naquelas ruas, praças e avenidas e usufruírmos do que há lá para nos dar prazer.

Daí haver também uma certa mistificação ou ilusão a respeito da vida nesses lugares. Nós vamos a Sortelha e ficamos encantados com as poucas velhotas vestidas de preto que lá vivem. Vamos à Nazaré e achamos as peixeiras fotogénicas. Passamos por uma aldeia no norte de África e ficamos encantados com a simplicidade daquelas crianças que vivem como na Idade Média. Em Londres, não conseguimos deixar de nos sentir tocados com o colorido multirracial da cidade.

Mas se lá vivêssemos e começássemos a perceber o dia-a-dia das pessoas, rapidamente entenderíamos que a vida nas cidades que nós idealizámos é precisamente igual àquela que eles idealizam quando vêm à nossa.

1 comentário:

José Borges disse...

Está certo, mas a minha intenção continuará a ser a de levar uma vida de flâneur em Paris. Suportado, naturalmente, pelos rendimentos de meus pais fidalgos. Ou sustentado pela arte.