15 agosto, 2009

ALTERAÇÃO SUBSTANCIAL DOS FACTOS (excerto)

- A minha tia Elsa tinha um irmão que viveu cá muitos anos. Um solteirão que fumava cachimbo e lia romances de viagem. Falavam dele muitas vezes, não se lembram? Devia impressionar, naquela pose de homem sozinho e misterioso.
Uma aragem fez soltar o cortinado que ficou a arrastar pelo chão. Luísa levantou-se para o prender e demorou-se a ajeitar as dobras, prendendo-as melhor com o cordão. Hugo reparou que, mais uma vez, ela se tinha levantado a meio de uma conversa do marido. Olhava a rua, fingia interessar-se por qualquer coisa lá ao fundo. Luísa detestava aquela casa que lhe predestinava as férias desde sempre. Desde a lua-de-mel, a bem dizer. Andara uns tempos a sonhar com coisas exóticas. Depois pensara que Gaspar preferiria o insólito ao exótico. Mas nem isso. Tinha sido ali na casa da tia Elsa. A tia Elsa, casada com o tio Mário que construira a casa. Imensa de quartos, de corredores que isolavam umas zonas de outras. Uma ironia da vida tinha feito Mário construir coisas em vão. Construir uma casa para filhos que não nasceriam e um jazigo para uma família que não tinha querido ser lá sepultada. O irmão, pai de Gaspar, recusara tantas vezes em vida tal hipótese que, quando morreu, até o Sr. Álvares da funerária perguntou, antes das condolências da praxe: “Para o jazigo não, pois não?”
Quando Luísa se voltou a sentar, o marido contava como o irmão de Elsa vivera, numa das zonas da casa, uma existência autónoma.
- Então, homem, você, praticamente, também só usa uma parte da casa ao que estou a perceber. Podia desanexar o resto e vender. - sugeria Jaime.
Hugo sorriu perante a expressão de repúdio do amigo. Um repúdio assustado como se lhe propusessem, sem dó nem piedade, a amputação de um membro.
Naquele fim-de-semana recebia a visita de Jaime e da mulher. Depois do almoço, levara-os até a casa de Gaspar.
Amigos desde pequenos, mantinham uma daquelas amizades sólidas que há entre os homens, feitas de presenças seguras nos momentos necessários, alheias às palavras vãs e às intrigas.
O primeiro casamento de Gaspar, com Ana, fora apanhado numa corrente de ar imprevista. Lembrava-se da noite em que ele a tinha encontrado, descalça, a caminhar sobre o rebordo do passeio, em pontas de pés, com um vestido de seda azul ensopado da chuva de Novembro, uma semana depois de se ter levantado da cama, sem que o marido a sentisse, e de se ter posto a caminho da praia, arrastando uma mala de viagem na direcção da água. E o olhar dela era vazio, mesmo quando sentada no sofá da sala parecia seguir com esforço as palavras que diziam. Uma vez agarrou a mão de Clara e disse-lhe em voz baixa que tinha perdido o fio à conversa, que sabia que o perdera, só não sabia em que ponto o perdera. Mas essas eram pequenas clareiras de lucidez, num emaranhado de gestos sem rumo e atitudes desconexas. Gestos subitamente perigosos e repetidos num ritmo a que nada nem ninguém conseguia pôr cobro.
Quando Ana foi internada no hospital psiquiátrico, temeu, também, pela sanidade dele. Via-o alternar períodos de uma excruciante melancolia que lhe cavava olheiras fundas e violáceas com momentos de uma acalmia silenciosa que em tudo parecia uma aceitação pacífica. Outras vezes, falava horas a fio, uma torrente de palavras que iam e voltavam ao ponto de partida e de novo se lançavam pelo mesmo caminho como um ritual de exorcismo.
Depois, Gaspar entrou num período de grande alheamento. Lembrava-se das ausências a meio de conversas a que tentava mantê-lo preso e das quais ele se esgueirava mentalmente, ficando a revirar o maço dos cigarros em cima da mesa do café, com um olhar que fugia e fingia voltar.
Quando apareceu a primeira vez com Luísa, num fim-de-semana, não tinha o ar ofegante dos apaixonados em paixão recente. Dava-lhe uma atenção imprecisa, mais próxima da cortesia do que do amor.
Dessa vez, enquanto se deitava, Hugo comentou:
- Olha, procura alguém que o faça esquecer-se da Ana.
- Ou que não o deixe esquecê-la … - contrapôs Clara, enquanto virava a cabeça para o marido na almofada.
Falaram ainda de Ana de quem Gaspar já não falava. Sabiam que ele a visitava regularmente no hospital.

2 comentários:

marteodora disse...

Este bocadinho levou-me, de imediato, para um lugar, uma casa,umas personagens (as quais visualizo na perfeição)e uma atmosfera talvez enevoada ou meio fosca, em tons de sépia.
Todos temos, nas nossas profundezas, algum sítio ao qual vamos buscar estes imaginários.

Gostei muito.

nefertiti disse...

Uma linda e trágica história de amor.
Escusado dizer que gostei muito.