23 julho, 2009

A SOMBRA DE HELENA


Esta importante notícia levou-me mais uma vez a pensar na importância do corpo feminino e da sua inegável complexidade quando comparada com o corpo masculino.

Quando, nos anos 60, as mulheres começaram a fazer topless, tal foi visto pelas feministas como um sinal de libertação. Hoje, as mesmas feministas começam a olhar para o topless como um sinal de obsessão da mulher pela beleza, pela elegância, por uma excessiva sexualização do seu corpo.

Neste aspecto, assumamos, não estamos longe do mundo islâmico. O corpo da mulher não é um corpo qualquer. É o corpo da mulher e com o corpo da mulher não se brinca. Estará sempre a si ligado um qualquer sinal, um sintoma, um manifesto, uma mensagem, um desejo, uma ideologia.

Quando as mulheres começaram a usar calças, isso teve um significado. Uma mulher de mini-saia tem um significado. Uma mulher sem soutien tem um significado. Um mulher de vermelho ou de preto tem um significado. Ao corpo do homem também estão associados significados mas será mais num plano social e não tanto sexual. Em Os Sonâmbulos, Broch diz o seguinte: "Dois homens com a mesma farda é uma coisa impessoal, é a farda do rei; dois homens com os mesmos fatos à paisana, é uma falta de pudor, são como dois irmãos". Eis, pois, um bom exemplo, do modo como o corpo do homem pode ser representado socialmente. Mas há um inflacção de sexo e de moral no corpo da mulher que o Ocidente, por muito moderno que se assuma, dificilmente consegue disfarçar. Neste aspecto, não evoluímos muito. A Ilíada, por exemplo, está cheia de fortíssimas personagens masculinas: Ulisses, Aquiles, Agamémnom, Pátroclo, Heitor. Mas há uma outra personagem que, na sua extrema leveza, tem um enorme peso em toda aquela dramática história: a sombra de Helena.

2 comentários:

addiragram disse...

Mas será o mesmo um homem de fato cinzento e o mesmo homem com um Polo alegre e despreocupado? Os preconceitos e as conotações também impregnam o corpo masculino, embora de uma forma mais subtil,talvez. Os olhos das mulheres não vêem sempre o mesmo....

José Ricardo Costa disse...

Acho que, apesar de tudo, são coisas diferentes. Um homem de fato cinzento ou de polo pode indiciar uma profissão, o estar de férias ou não, uma classe social, dependendo isso da marca do polo. Mas não tem, na minha opinião, qualquer relevância do ponto de vista da sua identidade sexual ou do seu estatuto enquanto género. Há sinais que, embora sendo masculinos, valem por outros motivos. Na mulher, pelo contrário, os sinais a si associados dificilmente podem ser desligados da sua feminilidade enquanto condição ou ethos.

JR