02 julho, 2009

RELIGIÃO E ESTÉTICA


Este post é uma resposta ao comentário do Jorge no post anterior.

Eu jamais retiraria legitimidade filosófica ao problema de Deus. É incontornável. Uma questão que não se pode evitar. Embora o problema de Deus tivesse deixado de fazer parte da “agenda filosófica” contemporânea, nunca deixou de ser uma das mais inquietantes questões com as quais a razão humana terá, forçosamente, que se confrontar. E ainda que, numa linha analítica, se defenda tratar-se de um não-problema, de uma questão mal colocada, de um não- conceito, a questão está para a nossa razão como aquele pedaço de fita-cola no dedo do qual não nos conseguimos separar abanando violentamente a mão para cima e para baixo quando temos a outra ocupada.

Mas isto não é religião. É filosofia. Discutimos o conceito de Deus do mesmo modo que discutimos a causalidade, o livre-arbítrio ou o Estado. Ora, as nossas senhoras, os cristos, os santos, as pessoas a rezar, de um ponto de vista filosófico, nada me dão, nada me explicam. Eu entro numa igreja como entro num hospital psiquiátrico. A grande diferença é que a igreja é bem mais bonita do que o hospital psiquiátrico. Aliás, não é por acaso que eu gosto muito de igrejas: as igrejas foram feitas precisamente para que nós gostássemos delas.

O texto de Kant nada tem que ver com as multidões de Fátima (tratado Teológico-Político, topas? O teu amigo Leo Strauss terá muita coisa para te dizer a esse respeito…). As ratoeiras da dialéctica transcendental nada têm que ver com a capelinha do sítio da Nazaré. As relíquias barrocas, as unhas, os dentes, os bocados de osso, nada têm que ver com o mar alto no qual a navega a razão já longe da terra firme da empiria e quaisquer faróis sensíveis.

Eu tenho inquietações filosóficas e Deus é uma delas. Não tenho inquietações religiosas. O meu fascínio pelas imagens religiosas é puramente estético. Na fotografia que está no post abaixo, gosto dos amarelos, do azul, do preto, do efeito visual daquelas flores de plástico e, depois, acho piada àquele boneco pendurado no meio dessas cores. Estética. Estética pura e dura.

Gosto ainda da ideia de trabalhar o kitsch. Por exemplo, o Jeff Koons mostra o kitsch para o enaltecer enquanto kitsch. Eu gosto de fazer o seguinte exercício. Transformar as nossas senhoras de fátima, as pavorosas, horríveis, pirosíssimas nossas senhoras de Fátima, dando-lhe uma certa dignidade poética. E, modéstia à parte, acho que consigo. É um dos meus passatempos preferidos. Ponho música a tocar e para aqui estou a transformar as nossas senhoras, os santinhos, os altares. Faço-o do mesmo modo que outros fotografam mulheres nuas, praias ao pôr-do-sol, barcos ou árvores. Estética pura e dura.

Jorge, escusas de tentar. Sou absoluta e incondicionalmente inconvertível.

1 comentário:

JCM disse...

É muito curiosa a continuação do texto de Kant:

«Não é por culpa sua (da Razão) que cai nessa perplexidade. Parte de princípios, cujo uso é inevitável no decorrer da experiência e, ao mesmo tempo, suficientemente garantidos por esta. Ajudada por estes princípios eleva-se cada vez mais alto (como de resto Iho consente a natureza) para condições mais remotas. Porém, logo se apercebe de que, desta maneira, a sua tarefa há-de ficar sempre inacabada, porque as questões nunca se esgotam; vê-se obrigada, por conseguinte, a refugiar-se em princípios, que ultrapassam todo o uso possível da experiência e, não obstante, estão ao abrigo de qualquer suspeita pois, o senso comum está de acordo com eles.»

Aqui, obviamente, sublinho o papel arbitral do senso comum. Tu dizes: “Eu tenho inquietações filosóficas e Deus é uma delas. Não tenho inquietações religiosas.” Claro, as inquietações religiosas são as que competem ao senso comum, as filosóficas dizem respeito a uma razão cultivada. Mas, estritamente falando, elas são as mesmas, expressando-se com linguagens diferentes. Por outro lado, a própria religião é um fenómeno bem mais complexo do que aquilo que se pressente na religiosidade popular, como se pode ver quando se entra em “contacto” com a mística ou com as religiões sem Deus, como o Zen.

Mais! Dizes: “Eu gosto de fazer o seguinte exercício. Transformar as nossas senhoras de fátima, as pavorosas, horríveis, pirosíssimas nossas senhoras de Fátima, dando-lhe uma certa dignidade poética. E, modéstia à parte, acho que consigo.” E no fim acrescentas: “Faço-o do mesmo modo que outros fotografam mulheres nuas, praias ao pôr-do-sol, barcos ou árvores. Estética pura e dura.” Mas a pergunta que se deve colocar é então a seguinte: por que razão (ou desrazão) escolhes esse enfoque estético? O que te seduz no kitsch fatimista? Melhor, o que está por detrás daquilo que te seduz?

E separar a estética da religião não me parece argumento convincente ou sequer argumento. A religião dos gregos é uma religião estética. O divino manifestou-se na arte e esta acabava por ser uma forma de culto. O cristianismo, uma religião do sentimento e por isso permite muitas daquelas manifestações desagradáveis, não conseguiu dispensar o elemento estético. Dizes que és inconvertível. Talvez, mas porque de certa maneira te converteste já. Aliás, o zelo com que por vezes te opões ao fenómeno religioso não é lá muito bom indicador de falta de fé. E contrariamente ao que a Ivone escreve, há estradas de Damasco em muitos sítios e com muitas formas. Digo eu, que fui treinado na hermenêutica da suspeita.

Para terminar, dizes: “As relíquias barrocas, as unhas, os dentes, os bocados de osso, nada têm que ver com o mar alto no qual a navega a razão já longe da terra firme da empiria e quaisquer faróis sensíveis.” Não te acompanho. O mar alto onde a razão navega não é outro mar do que aquele onde se situam as relíquias barrocas e todas a parafernália da superstição. Porque esta não deve ser lida apenas como superstição, mas com sintoma da percepção que o homem comum tem desse mar alto.

Abraço,

JCM