17 julho, 2009

PRAÇA 5 DE OUTUBRO



Às vezes gosto de fazer a seguinte experiência. Olhar para uma coisa que conheço há anos, ou para uma pessoa cujo rosto me é perfeitamente familiar, e tentar vê-los como se fosse a primeira vez. Quer dizer: fazer com que apareçam na minha consciência em estado puro, como puras essências, livres de conteúdos e influências, enfim, vê-los tal como são em si mesmos.

Imaginemos, por exemplo, o rosto de Mário Soares. É um rosto que está associado a centenas de dados que filtram a nossa relação com esse rosto. Se eu quiser perceber que rosto é aquele, qual a sua essência, como é em si mesmo, já não sou capaz. Tenho pois que recorrer a um processo de limpeza geral da mente a fim de poder, então, captar aquele rosto como irei captar o rosto de uma qualquer pessoa que irei ver um dia destes pela primeira vez.
A primeira vez que tive a sensação de estar a ver pela primeira vez uma coisa já muito vista, lembro-me perfeitamente, foi em 1989. Estava a dar aulas no Cacém e a morar na Amadora. Dois bons exemplos do esplendor suburbano. Ao vir passar um fim de semana a Torres Novas, depois de uma semana no meio de uma floresta de cimento, tráfego intenso, paisagens decadentes e cheiro a gasóleo, dou por mim a entrar na Praça 5 de Outubro pelo lado da Misericórdia.

O que ali aconteceu foi uma espécie de aparição. Conhecendo aquele lugar desde que nasci, tendo lá brincado centenas de vezes, e lá passado centenas de vezes de carro e a pé, tive a sensação de estar a ver a Praça tal como ela é em si mesma. Mais: fiquei mesmo a pensar que aquela praça é Torres Novas e que Torres Novas é aquela praça. Os outros sítios são apêndices, acrescentos, tentáculos que se espalharam a partir de um centro.
Não estou a ser movido por uma leitura subjectiva de Torres Novas. Se assim fosse, Torres Novas seria as ruas onde nasci e onde vivi. Essas, sim são recordações minhas, recordações privadas da minha consciência. Agora, as recordações da Praça 5 de Outubro não são minhas. São as recordações que Torres Novas tem de si mesma.

Torres Novas está na Praça 5 de Outubro. Torres Novas é um centro que se vai desdobrando sobre si próprio a partir da praça. Pensando em termos plotinianos, quanto mais perto da praça, mais Torres Novas é, quanto mais longe da praça, menos Torres Novas é.
Se Torres Novas tivesse o seu Aleph, aquele lugar que concentra todos os lugares de que fala Jorge Luís Borges num dos seus vertiginosos relatos, seria certamente a Praça 5 de Outubro.

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