15 julho, 2009

PAULO NOZOLINO - MY FATHER'S SCAR (2002)

Vemos aqui um corpo velho, carcomido, enrugado. Um corpo que parece adivinhar a morte que se aproxima. Faz lembrar os corpos dos velhos nas enfermarias dos hospitais ou nos campos de concentração. Já vi em documentários corpos nus de velhos em campos de concentração nazis. O que mais impressiona é a naturalidade com que a sua nudez é filmada. Corpos que se tornaram assexuados, desvitalizados. Estão nus mas a sua nudez passa despercebida, é ignorada, como se fossem objectos já previamente preparados para morrer e já sem qualquer memória biográfica do esplendor juvenil de outros tempos.


Estou a pensar nas vezes, e foram já várias, em que vi corpos de velhos, demasiado expostos, em hospitais. Sou quase obrigado a lembrar-me da Lição de Anatomia, de Rembrandt. Um corpo reduzido a um nível puramente clínico, um corpo tão absolutamente exposto como na pornografia mas, ao mesmo tempo, absolutamente anti-pornográfico. Enquanto na pornografia o corpo se expõe para ser visto, no hospital, os velhos podem expor os corpos porque já não são vistos. Enquanto na pornografia, o corpo, enquanto objecto de desejo, atinge uma radical e luxuriante visibilidade, no casos dos velhos, o corpo transforma-se num objecto opaco e invisível.

É por isso que eu gosto desta fotografia. Revela um corpo que surge perante os nossos olhos com uma enorme dignidade. Tendo certamente consciência da decrepitude e ausência de sensualidade do seu corpo, este homem recusa a a sua redução a um puro objecto, de um objecto exposto num clássico gabinete de curiosidades, onde pode ser observado de um modo distanciado. E como o faz? Escondendo o sexo com a mão. Esconder o sexo, aqui, significa um apego final a um corpo que parece querer deixar de existir mas que, ainda assim, teima em resistir. Um corpo que ainda se quer tapar é um corpo ainda com orgulho nele próprio e consciente da sua identidade.


Não dizem que a humanidade, a verdadeira humanidade, começou com uma maçã?

8 comentários:

Nefertiti disse...

Não sei se foi a verdadeira, mas dizem que sim, que foi com uma maçã.

Se eu dizer que gostei muito do texto, trono-me muito repetitiva, mas não há volta a dar a estes meus comentários...

marteodora disse...

Esta fotografia impressionou-me deveras!
Todos nós,somos, de uma maneira ou outra, prisioneiros dos nossos corpos (quer dizer, há excepções como a Tina Turner,lol). Estamos privados de alguma liberdade por causa disso. Uns somos baixos (o meu caso, outros altos, uns magros e outros gordos, uns burros que nem portas e otários e parvos e estúpidos e ignorantes e prepotentes arrogantes e limitados convencidos de que são muito bons e muito, muito mais espertos do que os outros(os que mais odeio).Há ainda os brilhantes e inteligentes(os dois ponteiros parados)que usam estas capacidades para iluminar o nosso quotidiano.
Além disso, o meu corpo físico encerra os meus medos, fantasmas, traumas e delírios.
E, com isto tudo, queria dizer que, tal como mostra a foto, o corpo humano, ao envelhecer transporta até a fim as cicatrizes de todo o género.
E como custa aceitar a presença de uma cicatriz em nós. As psicológicas, às vezes, escondem-se e, de vez em quando emergem nos nossos sonhos e fantasmas.
As outras, aquelas que olhamos de frente, quando nos vimos ao espelho, estão lá para, constantemente, nos lembrarmos disto: SOBREVIVI!

hipericão disse...

A foto é excelente, aliás como todo o trsbalho deste autor.
Mas o seu texto está cheio de preconceitos, muito em voga nas mentalidades "kitsch": "o esplendor da juventude", a confusão entre desejo e pornografia, mais uma data de lugares-comuns sobre o corpo.
Por que será que o Nozolino fotografou este corpo e nao o de uma top-model, de um gajo de bons bíceps ou outros "esplendores"?

As diversas idades do corpo, desde o nascimento à morte são todas dignas. Privilegiar "a idade do tesão (desejo é outra coisa) entre todas, esclarece o tipo de mentalidade e a reflexão que consegue.
A foto merecia melhor.

José Ricardo Costa disse...

Cara Hipericão, agradeço a crítica. É a diversidade que dá colorido à vida. Gostássemos todos das mesmas coisas e isto não teria gracinha nenhuma. Choca-me um pouco a possibilidade de me ver associado a preconceitos, lugares-comuns, kitsch, visto fazer tudo para os combater, mas nada melhor do que uma "consciência maldita" para nos alertar. Obrigado.

JR

nefertiti disse...

Errata: "se eu disser..."

Mafalda disse...

Devo dizer que fiquei impressionada com este post. A fotografia choca, de certo modo, por ir contra aquilo que se espera de um modelo fotográfico: o protótipo de algo "agradável à vista". Contudo, a beleza da interpretação supera isso mesmo. A nossa dignidade é algo que tentamos sempre preservar, inconscientemente. Talvez nos campos de concentração isso não ocorresse porque essa mesma dignidade estava de tal forma mal-tratada e disforme que não existia qualquer necessidade de o fazer. Em relação à interrogação do último parágrafo, cito as palavras da minha avó materna: a culpa disto tudo é do Adão e da Eva.

hipericão disse...

Bom e honesto rapaz!

H.

Anónimo disse...

Concordo em absoluto com a análise da fotografia em questão. Tudo faz sentido, tudo tem uma lógica, perante a postura do estar, tão expressa neste blog.