13 julho, 2009

PARA A ESTELA, A NEFERTITI E A MICHA QUE DEVEM SER FEROZES OPOSITORAS DA CAÇA, MAS QUE GOSTAM DE HISTÓRIAS ANTIGAS

Durante um curto período de tempo, mantive, no Jornal Torrejano, uma coluna intitulada Os Trabalhos e os Dias.

Esta crónica foi dedicada ao marido de uma colega minha, na sequência de um trágico-cómico acidente com final feliz.

Aqui fica, dedicada também às meninas em epígrafe.


METÁFORAS DE CAÇA


Dedicado ao X que deu um tiro no pé.

Quem nunca viu uma manhã de caça nunca viu nada. Quem nunca esteve numa batida, respirando a bruma e a madrugada, transido de frio no fundo de um barranco à espera que o javardo fique em mira e, quando apenas lhe fez sangue, vê o bicho ferido avançar para si, desconhece que o conceito de perigo tem extensões inimagináveis. E tem o sabor da terra o som do dobre de finados.
Era no pátio da casa dos meus avós que batedores, cães e caçadores se juntavam. Para os meus olhos de criança, era um ambiente feérico. Lá estavam o meu magnífico avô, os meus tios esplendorosos, amigos, criados de lavoura orgulhosos como príncipes russos, lavradores riquíssimos humildes e calados comos servos da gleba, homens muito pobres que tinham juntado, tostãozinho a tostãozinho, até poderem comprar a espingarda com a qual caçariam o sustento da família durante a semana.
Usavam botas rijas e çamarras fortes. Roupa séria. Homens sérios ainda os há, roupa séria cada vez há menos. E havia o alarido dos cães e as vozes dos homens. E uma excitação contida como se todos fossem, ao um tempo, muito jovens e infinitamente velhos e sábios.
Os meus pais passavam sempre o fim-de-semana em casa dos meus avós. O meu pai, que nunca foi caçador, acordava mais tarde e passava o dia nas leituras dele.
Para a minha tia Zaia, era ponto de honra: era ela quem fazia o pequeno-almoço dos caçadores.
Lá pelas cinco da manhã, lá estava eu, debruçada da janela da cozinha que dava para o pátio. A minha tia refilava: sempre detestei pijamas e, nessse tempo, já eu me tinha feito herdeira de todas as camisas de noite provenientes do enxoval da minha mãe. Era, pois, vestida de cetim e rendas que a minha adolescente pessoa assistia à partida para a caça.
Um dia, o meu tio António disse: “Vai-te lá vestir”. Enfarpelei-me em segundos e palmilhei atrás deles, um dia inteiro, montes e vales. Ia morrendo de cansaço. Quando regressávamos, penduraram-me à cintura três perdizes e subi a rua feliz.
Claro, nunca mais se viram livres de mim. Fui com eles, vi, observei, perguntei.
Eram homens bons, justos e sensatos. Respeitavam as árvores e as mulheres, os homens e os bichos, as águas e as terras, as promessas e as juras.
Vi pais a ensinar aos filhos como se distinguem os animais, vi avós a corrigirem aos netos posições de tiro, como uma avó ensina a uma neta a envolver os ombros com uma estola de pele.
Quando cheguei à idade legal, obtive a a minha carta de caçador e a licença de uso e porte de arma. O meu meu tio António ofereceu-me uma espingarda que tinha um coice fortíssimo, mas eu nunca me queixei.
Esses homens, e muitos outros que são caçadores ainda hoje, fizeram mais pela natureza e pelos animais do que muitos ecologistas, que por aí andam, tão verdes, tão verdes que ainda acabam no banco do Sporting. E talvez fossem de aproveitáveis, que aqueles meus rapazes andam com uma falta de jeito que não há tranquilidade que lhes acuda.
Vem esta conversa toda a propósito do X, marido da minha colega Y que, para quem não sabe, é uma excelente professora de Biologia da minha escola. Como outros excelentes professores há por essas escolas, professores humilhados e maltratados pelo Ministério da Educação. Deve ser mesmo uma questão de educação.
Adiante. Ora, o X começou tarde a caçar. Encostou (que raio lhe terá passado pela cabeça?) a arma ao pé e, acidentalmente, disparou. Foi muito bem assistido, está a recuperar lindamente e, quando o visitei, parecia um turco do império otomano, refastelado num sofá, rodeado de almofadas por todo o lado.
O X é um homem bom, justo e sensato. Não teve foi um tio que, aos 14 anos, lhe ensinasse que, numa caçada, é impossível levar a arma sempre na mesma posição. Logo o cano deve estar sempre, mas sempre, virado para onde, em caso de disparo acidental, não se atinja alguém ou o próprio. E todavia, acidentes sempre os houve.
Cacei pela última vez, teria 22 ou 23 anos. Havia lá uns moços com umas penas irritantes nos chapeuzinhos que, além dos chapeuzinhos, também tinham atitudezinhas. A arma, que sempre tivera um coice valente, deixou-me o ombro numa desgraça.
Percebi, logo a meio da amanhã, que os tempos tinham mudado. O tempo é o nossso pior inimigo e não adianta atacá-lo. Nem é preciso ser general para saber o que qualquer um deles sabe: quando não se pode vencer um inimigo, mas vale aliarmo-nos a ele. Bem, a não ser que o conde de Lippe se tenha esquecido de ensinar isso quando por cá esteve.
Não cacei mais. Vendi a espingarda, cancelei a carta e a licença.
Quando saí de casa do X, ele estava a começar a atender uma chamada e eu estava a começar a pensar que há coisas bem piores: há quem dê um tiro em cada pé. Mas issso não é falta de um tio, é falta de tino.

3 comentários:

Micha disse...

Ivone, obrigadissima! Que estoria contada de forma deliciosa. Meu pai tambem era cacador (que falta faz um cedinha no teclado) de final de semana. Cresci observando todo o ritual que envolve a caca e ouvindo estorias incriveis que nunca saberei se eram verdadeiras ou nao. Porem nunca tive a sua sorte, infelizmente nunca acompanhei meu pai e acho que a culpada fui eu...pois nunca conseguia acordar a horas :(

estela disse...

obrigada Ivone.
pela partilha, mais que pela caça ... [não sou feroz opositora ;), mas como não percebo nada do assunto, para quem gosta dela, é como se eu o fosse]... e por um não sei quê de agustina do sul que me agrada...

nefertiti disse...

Nessa caça até eu participava.
Um dia, nas Flores (Açores), também convidaram-me para ir à caça. A ideia era atirar para uns patos selvagens que existiam por lá, num lago. Deram-me uma espingarda e eu atirei à toa. Caí para trás com a pressão do tiro e, no dia seguinte, não pude trabalhar porque a queda foi tal que mal podia mexer o corpo. Penso que foi um castigo dos deuses... foi bem feito para mim!!
Eu oponho-me às situações que criem sofrimento aos animais, porque se a sobrevivência já é tão difícil, para quê criar mais obstáculos e agonias?
Eu sou uma admiradora dos seus textos. Quando venho aqui, respiro fundo, pois sei que há sempre magníficos brindes.
Muito Obrigada.