24 julho, 2009

PAMELA DE WILLENDORF


Ficou para história com o bonito nome de Vénus de Willendorf. Refiro-me à célebre escultura pré-histórica representando um corpo feminino marcado pela fartura de carnes e no qual se salientam uns generosos seios. Não admira que os nossos avós primitivos apreciassem um corpo feminino com fartos seios. Inevitavelmente associados à fecundidade, à fertilidade, à sobrevivência. Enfim, o peito feminino enquanto úbere, fonte de vida e sustento.

O que já pode ser estranho é o facto de o excesso de volumetria mamária continuar a exercer um enorme fascínio na humanidade. Numa época em que há o leite de farmácia, os pacotes de leite pasteurizado, os suplementos vitamínicos, em que as mulheres até poderiam extinguir o peito do mesmo modo que foram perdendo os pelos que cobriam o corpo.

Como explicar, pois, que medicamentos que aumentam o volume dos seios, sejam um sucesso de vendas? Será que os argumentos mamários da Vénus de Willendorf continuam a exercer um hipnótico fascínio tal como no seu tempo? Continuam. Basta ver os calendários expostos nas barbearias, oficinas e camiões TIR ou o sucesso do wonderbra, para perceber que silicónicas mulheres como Dolly Parton, Sabrina, Pamela Andersen, Samantha Fox ou Sofia Aparício não aparecem por acaso. Significa isto que Pamela Andersen estará para nós como a Vénus de Willendorf para os primitivos antepassados?

Não. Acontece simplesmente que o seio deixou de estar apenas associado à maternidade para ser também um sinal de feminilidade. Em suma, com o tempo, o seio erotizou-se, deixou de ser apenas apelativo para bebés ou um material simbólico ligado ao inconsciente colectivo da humanidade, tornando-se também num instrumento de sedução que organiza a identidade feminina de um ponto de vista estético e erótico.

Mesmo numa época em que as mulheres são agredidas pela exigência de um corpo magro, numa época em que a mínima quantidade de gordura é vista como uma praga que ameaça o ecossistema feminino, a farta volumetria dos seios consegue resistir ao império da magreza.
Para a historiadora Marilyn Yalom, autora de uma interessante “História do Seio”, há uma pintura do século XV, uma Nossa Senhora com o Menino de Jean Fouquet que poderá marcar o início de uma visão erótica do seio. É essa a imagem que se vê em cima.

Na arte medieval existem muitas imagens de Nossa Senhora expondo o seu peito perante o Menino. Mas é um peito virginal, de uma simplicidade quase bizantina, reduzido à sua dimensão láctea, um peito cujo leite não é apenas fonte de vida biológica, mas também de vida espiritual. É uma espécie de seio imaterial, sem carne, um seio do qual jorra uma láctea luminosidade que purifica aquele que o bebe. Só que a mulher que serviu de modelo para a pintura de Jean Fouquet chamava-se Agnès Sorel e era amante de Carlos VII de França. Uma mulher conhecida pela sua beleza, pelos vestidos muito decotados, pelo luxo. Percebe-se, assim, o que terá levado J. Huizinga a dizer que este quadro tem “um sabor de ousadia blasfema”.

Já viu o que é representar Nossa Senhora a partir de um modelo daqueles? Depois, o peito de Nossa Senhora nesta imagem já não tem o aspecto de outros tempos. Já é um peito sedutor, feito para seduzir quem olha para o quadro, um peito cuja exposição não revela qualquer inclinação para amamentar o menino, o qual, como se pode reparar, revela uma atitude de absoluta indiferença. É uma mulher ambígua. Ao olharmos para ela ficamos baralhados. Sem saber se devemos olhar para aquela mulher enquanto Nossa Senhora ou enquanto Agnès Sorel. Não sabemos se é uma mulher enquanto mãe ou uma mulher enquanto mulher. Há pois uma tensão nesta pintura que permite prever uma linha de fronteira entre o ocaso de uma virginal Nossa Senhora e uma Pamela Andersen cuja génese já se vislumbra.

Compreende-se assim o facto de milhares de portuguesas gastarem fortunas nos tais medicamentos que aumentam o volume e consistência dos seios. Há por trás de cada consumidora uma Agnés Sorel que deseja ser olhada com o mesmo olhar lúbrico e lascivo com que os franceses do século XV olhavam para a amante de Carlos VII. Isto só revela o claro reconhecimento do peito feminino como enorme centro de gravidade da corporeidade feminina, o peito feminino como conceito essencial de toda a estrutura físico-química da mulher, um conceito tão essencial para a ciência feminina como o conceito de tempo para a teoria da relatividade de Einstein.

O seio feminino torna-se, assim, num ele de ligação entre épocas diferentes da história, um elemento de união entre passado, presente e futuro. Podemos pois ver a Vénus de Willendorf como uma Pamela Andersen pré-histórica ou Pamela Andersen como uma moderna Vénus de Willendorf.

2 comentários:

addiragram disse...

O interessante do seio é o pluri-investimento que o ser humano faz nele. O bebé que mama ao peito investe o seio materno como fonte de satisfação, não só através do alimento e conforto que dele recebe como pelo prazer que retira da própria sucção.Se esta relação primeira se entrelaça numa relação satisfatória, o seio será, muito provavelmente, investido na vida adulta como fazendo parte de um Todo. Se algures surge uma dissociação entre a alimentação e a relação, pode acontecer que o seio venha a ser sobrevalorizado, porque visto de uma forma parcial.
Por outro lado, na sexualidade adulta estão presentes em diferentes gradientes formas da sexualidade infantil. As reminiscências da oralidade não desaparecem pelo simples facto de sermos adultos.
O investimento que a mulher faz nos seios,contém um conhecimento implícito da importância que eles sempre terão para o sexo oposto. Não podemos esquecer que o primeiro objecto de amor ( até ao aparecimento de "pais" que dão à luz) é mesmo a maravilhosa mãe, também ela mulher.

nefertiti disse...

Eu acho que esses tipo de investimentos são desnecessários, mas, ok, são posições.