18 julho, 2009

ONLY YOU



Na última feira de velharias, em Torres Novas, andei a ver singles. Aqueles discos pequeninos com duas canções. Vistos à distância, é muito interessante entender a sua existência. Comprava-se um single por causa de uma canção. Oferecia-se um single por causa de uma canção. O single, na sua essência, era “uma canção”. Não era, como num LP, uma canção no meio de muitas. Aquela canção tinha um valor absoluto, era o alfa e o ómega do single. Ok, havia o lado B, mas este era quase sempre a outra canção e não a canção. O lado B era a outra. Uma coisa do género “Afinal havia outra”.

A existência do single lembra um pouco o que diz o Umberto Eco sobre as idas aos museus. Diz ele que se devia ir a um museu para ver apenas um quadro. Tal seria uma forma de o valorizar, de olhar para ele como realidade única e irrepetível, em vez de andar a ver quadros após quadros, esquecendo-os com a mesma rapidez com que se vêem.
A pessoa comprava o single (que até nem era barato) e ouvia a canção, uma, duas, três, quatro vezes. A canção era a canção das canções. E a canção era tão importante que até havia mesmo o Festival da Canção. E ia-se à discoteca comprar o single da canção que tinha ganho o Festival da Canção. Ou telefonava-se para o Quando o Telefone Toca, e pedia-se a canção.

O single, entretanto, morreu. E não foi o LP que o matou. Nem a cassete ou o CD. Foi o MP3 que o matou de vez. Um pequeno objecto do tamanho de um corta-unhas no qual estão depositadas milhares de canções sacadas da internet, ocupando um espaço virtual. Claro que o prazer da música será sempre o mesmo, nem eu pretendo vir para aqui dizer o contrário. O que eu quero dizer é que o MP3 pode ser um símbolo de uma visão cansada e indiferente das coisas devido à quantidade e velocidade com que aparecem e desaparecem.

Vai-se à internet e, numa hora, saca-se uma pilha, uma barrigada de canções até encher o bandulho. O single, pelo contrário, marca uma época de amor a uma canção. Uma época em que as canções tinham uma capa com fotografias ou desenhos. Para ouvir a canção tinha-se que tirar o disco da sua capa, depois, faziam-se-lhe umas festinhas para lhe tirar as impurezas antes de, com o dedo enfiado no buraco, deitá-lo suavemente no gira-discos para finalmente nos deliciarmos com a melodia. Era todo um ritual de amor e carinho a uma canção.
Já não há volta a dar a isto. O tempo, infelizmente, como pedia o António Mourão, não volta para trás.
Jornal Torrejano, 17 de Julho de 2009

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