19 julho, 2009

O GRANDE FOTÓGRAFO


Eis uma notícia nada fácil de digerir.

Esta senhora que aqui se vê tinha, actualmente, 74 anos. A seu lado, o marido, tinha 85 anos. Ela descobre que tem cancro e muito pouco tempo de vida em condições terríveis. Uma mulher cheia de energia, a única, segundo a filha, a conseguir ter mais energia do que o neto. Decide praticar suicídio numa clínica suíça. O marido, por sua vez, não está com uma doença terminal. Mas já não consegue ler, um dos seus grandes prazeres, apesar de viver numa casa rodeado de livros. E já nem sequer consegue ouvir música apesar de toda uma vida dedicada a ela. Era maestro. Nestas condições e depois de 54 anos de um casamento feliz e de uma vida preenchida e intensa, decide partir com a mulher. Os dois filhos acompanharam-nos à Suíça e, segundo relata um deles, antes de terem ingerido o líquido letal, despediram-se, dando as mãos. Nos últimos dias, já na Suíça, os pais não mostraram quaisquer sinais de arrependimento, andaram sempre bem dispostos e não houve confissõs de última hora.
Eu não fui buscar esta história para levantar o problema da eutanásia, que há muito tenho resolvido. Nem será tanto, confesso, a notícia em si. É esta fotografia. Eu olho para esta fotografia e graças a ela entendo perfeitamente séculos e séculos de defesa da imortalidade da alma. É um dos nossos grandes narcísicos exercícios. Porque experienciamos a felicidade, achamos que teremos sempre direito a ela. Os animais e as plantas morrem, e morrem mesmo. Agora, nós, como podemos morrer depois de termos passado por momentos como o desta fotografia? Como pode deixar de ser feliz quem experienciou, outrora, a felicidade? Não devemos, está certo, como dizia o outro, regressar a um lugar onde se foi feliz. Até porque, quase sempre, não podemos. Os pais desta fotografia jamais poderiam voltar a repetir esta fotografia. Mas já que não podemos voltar aos lugares onde fomos felizes, partamos para outros onde poderemos continuar a ser felizes. Podemos não ser sempre felizes mas somos dignos da felicidade. Não vai ser aqui? Irá ser noutro sítio. Um sítio onde até nem sequer há cancros e desemprego e terramotos e acidentes de automóvel e violência doméstica e filhos abandonados e patrões tiranos e políticos aldrabões.
A vida eterna não é um acidente antropológico. É um direito moral. Somos inteligentes, racionais, temos uma alma, um espírito, logo, não faz sentido termos o mesmo destino dos animais. Os animais comem, bebem, dormem, reproduzem-se e morrem. Pronto, está tudo dito. Morrem e morrem muito bem. Têm o que merecem. Mas nós não. Nós pensamos, amamos, contemplamos, sentimos, acreditamos em Deus, tendo sido feitos à sua imagem e semelhança. Mas são sobretudo momentos como o desta fotografia que não nos deixam morrer. Não é por acreditarmos em Deus ou por Deus existir que merecemos viver sempre. Deus existe, precisamente, para podermos viver sempre. É, digamos assim, como um fotógrafo que está no céu, sempre pronto a tirar-nos fotografias para mais tarde recordar.

3 comentários:

Ana. disse...

Eu também tenho a questão da eutanásia bem resolvida na minha cabeça. E só espero que quando tiver 80 ou 90 anos não precise de ir à Suíça se a minha decisão for partir para outro lado...
Poucas coisas me chocam mais que a degradação da vida e da dignidade do Homem.

Excelente texto, como sempre!

;)

Gustavo Faria disse...

li bem: "acreditamos em Deus"?

José Ricardo Costa disse...

Leste. Este "acreditamos" equivale a um "acredita-se". Já agora, não te vi pela Nazaré.

JR