17 julho, 2009

O CONCEITO DE CASACO COMPRIDO DE VERÃO

Com dedicatória à Miss Pearls que, palpita-me, entende destas coisas.

Dantes, as senhoras tinham casacos compridos de Verão. Coisa mais absurda dirão alguns leitores. Passo a explicar: o casaco comprido de Verão, ao contrário do de Inverno, não servia para aquecer, servia para compor. Hoje, quase toda a gente desconhece o conceito de “roupa para compor”. Assim como quase se desconhece o conceito de “vestir-se para”, desconhecimento bem mais grave porque, em consequência, se vê cada figurinha… Pois os ditos casacos eram feitos em tecido leve, a manga pelo meio do antebraço e, quando usados com umas luvas de cano curto, eram de uma elegância inenarrável.
A minha mãe tinha um casaco de Verão. Era de um tecido adamascado, num tom rosa-chá desmaiado, com uns botões em bege rosado. Ela usava-o com uns sapatos muito altos, com furinhos minúsculos na ponta. Eram exactamente no mesmo tom dos botões. Aqueles sapatos estragaram a minha vida para sempre. Passei horas a olhar para eles. E acho que em cada sapato que já comprei, (e os deuses bem sabem quantos já foram …) eram aqueles sapatos que eu procurava.

O meu tio Zé e minha tia Celeste, que já lá estão, têm uma história de casaco comprido de Verão. Todas as tardes o meu tio Zé se passeava, garboso, numa égua branca, pelas ruas da aldeia. O meu pai dizia que o barulho dos cascos no empedrado ia direito ao coração das moças. Por volta das seis, ele ia até ao largo da estação, apeava e ficava com os outros moços a ver quem chegava no comboio. Uma tarde, no fim de Setembro de 1938, desceu a nova professora primária. Dizem que ela trazia um casaco comprido de Verão muito bonito, com uma gola lindíssima. O meu tio Zé afirmou: “É com esta que eu vou casar.” E casou. E foram felizes para sempre.

Eu sempre tive um casaco comprido de Verão. A minha costureira nem pestanejou quando eu lhe pedi o primeiro. Ela compreende-me e os deuses ma conservem. Quando o visto em cima de um vestido, a deixar ver um pouco da saia, sinto-me tão habillée … e quando o visto com umas calças pretas, com uma camisa branca atada com um nó na cintura, sinto-me feliz.

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