24 julho, 2009

A MORTE DE UM PAI DESFOCADO


Esta fotografia não é uma fotografia qualquer. Foi a vencedora do World Press Photo de 2002 e mostra um rapaz iraniano agarrado às calças do pai que, vítima de um sismo, vai ser enterrado. Mas não é só isso que mostra.
Olhem lá para o fundo e vejam a multidão desfocada, pessoas cujos rostos não são visíveis. Ora, é exactamente essa a percepção que temos das pessoas que vivem no chamado terceiro-mundo. Uma visão desfocada que nos impede de ver pessoas como nós, mas apenas corpos que para ali estão: a empobrecer, a adoecer, a morrer. Está certo, são seres humanos, isso sabemos, mas, lá no fundo, nem sempre somos capazes de os ver dessa maneira.
Ou porque são pretos ou porque, embora não sendo pretos, são feios e escuros, ou porque comem coisas nojentas, ou vestem roupas caricatas, ou falam línguas primitivas, ou ouvem músicas ridículas, ou acreditam em deuses estranhos e praticam rituais absurdos.
Quando vemos no telejornal crianças de olhar vazio, com a cara cheia de moscas e chupando os peitos ressequidos de esqueletos moribundos que por acaso são suas mães, ficamos sensibilizados. Mas nada que se compare com o cenário de uma amorosa e limpa criança de olhos azuis que, no mesmo telejornal, aparece na secção de oncologia pediátrica de um hospital europeu.
As guerras, as epidemias, os massacres e a fome que existem lá longe, nos infernos do planeta, matam multidões como esta que vemos desfocada, e que não passam de números, estatísticas, corpos sem identidade.
Só que, graças a esta fotografia, foi possível extrair desse mundo desfocado um ser humano, curando assim a nossa miopia ética e cultural. Um rapaz que, com a sua dor, nos faz esquecer a multidão atrás de si. Eis, pois, uma pessoa e já não um simples corpo desfocado.
Um rapaz que tem um rosto que chora e duas mãos que seguram as calças de um pai que vai a enterrar, um desses homens desfocados dos quais ouvimos falar enquanto levamos a colher de sopa à boca. Se calhar, afinal, uma criança iraniana que chora não é muito diferente de uma criança portuguesa que chora.

4 comentários:

jl disse...

By the way…
“É interessante pensar como seria a nossa relação com a História se a fotografia tivesse sido inventada mais cedo. Termos hoje uma memória fotográfica tão intensa de certos factos passados como temos, hoje, dos factos presentes. É tão difícil imaginar uma relação fotográfica com o passado tal como é difícil imaginar uma relação com o presente sem ser fotograficamente” - escrevia hoje o JR noutro lugar, a propósito de outros fastos, de outra história, mas ainda acerca da fotografia…

Exacto.

Mafalda disse...

É triste, esta realidade. No entanto, as pessoas preferem viver na ignorância. Sim, ficam sensibilizadas mas nunca darão muita importância àqueles que todos os dias vão deitar-se com fome ou com o medo imperativo de que haja algum ataque terrorista que lhes roube os pais. Estas crianças são adultos de meio metro.

Nefertiti disse...

Corta-me a alma...

addiragram disse...

Desfocamos a cada passo.Desfocamos se são diferentes, desfocamos se a cor de pele é outra, desfocamos se a sua cultura nos é estranha, desfocamos se são feios, pobres ou doentes, desfocamos numa tentativa desesperada de nos pensarmos para lá de toda a desgraça e de toda a dor. Desfocamos porque somos perfeitos e todos os outros, uns miseráveis mutantes...Que olhos teriam aqueles nossos conterrâneos, que nos dias a seguir ao tsunami "desembarcaram" nas praias da Indonésia para se estenderem nos areais ainda povoados pela morte?
Um tema, que só por si, merecia um longo e aprofundado debate.