13 julho, 2009

MOMENTO BORGESIANO DO DIA

Não, eu não mereço estas coisas. O ateu visceral, o céptico mitigado que há em mim, o neto do Joaquim Alexandre Inácio que se ri perante as trafulhices do sobrenatural e que se sente em Fátima como se estivesse em Las Vegas, não merecia isto.
Combinei com a Cristina ir hoje às duas horas ao salão para ela me cortar o cabelo. Com a minha habitual pontulidade que deixa um relógio suíço corado de vergonha, às duas horas lá estava eu a entrar. Entretanto, vinha a sair uma colega minha. Começámos a conversar e eu lá estive a apregoar a minha velha teoria segundo a qual os salões de cabeleireira são os psicanalistas das mulheres. E tenho provas. Durante algum tempo morei em frente a este mesmo salão. Habituei-me, nesse período, a apreciar as expressões faciais e as poses das mulheres ao saírem do salão após as tão desejadas cirurgias capilares. A grande conclusão que retirei é que as mulheres, com o cabelo acabadinho de arranjar, atingem o nível supremo da auto-estima, o pico da auto-satisfação, o ponto G da plenitude existencial. Não estou a brincar, baseio-me em infalíveis e objectivos estudos empíricos.
A minha colega, que achou divertida a minha teoria, rematou então com uma coisa, que tinha lido há anos, do Miguel Esteves Cardoso, precisamente sobre o complexo mundo das cabeleireiras. E pronto, mais coisa menos coisa, lá nos despedimos, indo a minha colega à vida dela e eu depositando o meu pescoço nas delicadas e experientes mãos da Cristina.
Entretanto, ao fim da tarde, já em casa, sento-me sossegadinho a ler o PÚBLICO de hoje (Saravá, ZL!). A crónica do Miguel Esteves Cardoso era sobre os cabelos das mulheres.

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