13 julho, 2009

A MESA


Thomas Hoepker, fotógrafo da Magnum, andou em 1964 por Portugal. Ele não fez fotografias de Portugal. Fotografou Portugal, como se de uma pessoa se tratasse. Quem vê este homem e esta mulher que acabaram de casar numa aldeia transmontana, vê logo o Portugal dos anos 60. Que não devia ser muito diferente do Portugal dos anos 30. Que não devia ser muito diferente do Portugal do princípio do século.

Mas eu olho para esta fotografia e continuo a ver ainda o Portugal do século XXI. Imagino os filhos e os netos deste casal, e vejo-os reféns desta fotografia, uma marca que determina geneticamente as gerações seguintes.
Nesta fotografia, vê-se uma nítida contradição entre a mesa farta e elegante e as expressões vagas do casal. Percebe-se que é dia de festa. Uma mesa cirurgicamente bem posta e preparada para uma cerimónia. Uma mesa orgulhosa e que não esconde uma certa vaidade.

Mas o casal, pobre e analfabeto, está com um ar de exílio e de abandono. Absolutamente desenraizado. Como, se em Hollywood, actores vestidos de gladiadores romanos se enganassem no estúdio e tivessem ido parar às filmagens do Casablanca. O rosto deste casal é o rosto de Portugal depois das especiarias da Índia e dos escravos de África. O rosto de Portugal depois do ouro do Brasil. O rosto de Portugal depois dos fundos europeus. O rosto de quem está, ao mesmo tempo, deslumbrado e atónito perante uma mesa opulenta, num dia de festa que acaba sempre cedo demais.

Foi nos anos 80 que Portugal viu a luz da Europa entrar pela janela. Até então, não passava de um pobre e obscuro país entalado entre o vazio da planície espanhola e o vazio do mar e cujo mapa interior está bem reflectido no rosto deste casal.
Quando, com a CEE, Portugal se sentou à mesa para o banquete, sentiu-se orgulhoso ao lado da Alemanha, da França, da Inglaterra, da Holanda, de todos aqueles loiros de olhos azuis que conhecia dos telejornais e das praias.

Mas, mais do que a luz da Europa a entrar pela janela, foi o dinheiro da Europa a entrar nos bancos e a sair pelos multibancos. Não uma janela com vista para o exterior mas uma janela de oportunidades perdidas.
Portugal é, hoje, um país com uma mesa farta: um país de telemóveis, de plasmas, computadores, cozinhas equipadas, carros de alta cilindrada, passeios dominicais ao shopping. Eu vejo os filhos e os netos deste casal e vejo-os já num T2 de Chaves, Bragança ou Vinhais, uma qualquer cidade de Trás-os-Montes da Europa.
A mesa dos filhos e netos continua, pois, farta e bem posta. Mas são ainda os filhos dos seus pais e os netos dos seus avós. Já sabem ler e escrever, claro, mas não sabem ler e escrever como seria suposto saber ler e escrever um europeu normal do século XXI.

Eu vejo o ar aparvalhado deste casal e vejo o eterno ar aparvalhado de Portugal.

3 comentários:

estela disse...

concordo em absoluto com o desenvolvimento do texto, acho-o bem observado e descrito, gosto sobretudo do desencanto que atravessa os últimos parágrafos

MAS

não concordo em nada com o modo como o texto "nasce" da fotografia.
andei aqui uns dias a pensar e não sei ainda como é possível concordar em absoluto com o escrito e perceber até como está lida a imagem e ainda assim, ler eu própria a imagem de uma forma completamente diferente!e vendo o que vejo acabo por não concordar em nada com o texto.

vejo nestes noivos o receio.
um receoso "aparvalhamento" ante o estrangeiro - que os fotografa, que os toma como foco de atenções, que os centraliza lá por trás dos montes (não que não fosse um aparvalhamento nacional possível) e o estrangeiro sentimento de parecer importante o suficiente para ser fotografado.
e vejo também humildade.
a humildade que roça o desespero fadista de estar sempre aquém.

e dou comigo a não conseguir juntar as duas partes de mim, que lêem tão longe uma da outra esta imagem linda.

José Ricardo Costa disse...

Entendo perfeitamente a ideia. Não há uma relação de continuidade entre a imagem e o texto. Esta imagem não pede este texto. É por isso um texto muito livre. Mas o que posso fazer? Eu vejo esta relação contraditória entre a festa e a pobreza, entre a festa e o ar aparvalhado do casal, e não consigo deixar de pensar em Portugal. Devo ser um caso perdido. Ou uma parte das forças de bloqueio.

JR

estela disse...

qual caso perdido, qual carapuça!
;)

acho que sou um bocadinho mais cor-de-rosa porque estou longe e a memória é traiçoeira.

a verdadeira pasmaceira está aqui,
a 3000 e tal metros a oeste!