12 julho, 2009

MARIA INÁCIA

Eu não sei ao certo em que dia este post devia ter sido escrito. Na família sabe-se que a minha bisavó Maria Inácia fazia anos por meados de Julho. Ela casou em 1892 com o meu bisavô Miguel Rodrigues, vinte e poucos anos mais velho.

De todas as netas, apenas a minha mãe se parecia com ela. Era bonitinha, muito pequenina e frágil. Esta fotografia é da minha mãe, aos 24 anos. A minha avó dizia que, aqui, eram rigorosamente iguais.


Todas as minhas outras tias se pareciam com a minha avó: eram mulheres lindíssimas, altas, de pele clara e olhos verdes. Para os leitores a quem estes pormenores possam interessar, eu saio ao meu pai: somos baixotes, morenos e feios. Os deuses deram-nos, em compensação, uma muito boa memória que bem útil nos tem sido ao longo da vida.

Mas vamos ao que interessa. Era o meu bisavô Miguel Rodrigues rapaz de 20 e poucos anos, quando foi visitar um amigo a quem, ao fim de alguns anos de porfia, nascera finalmente um rebento. Uma rapariga. O meu bisavô, dando-lhe o abraço da praxe disse: "Essa, guardem-na para mim. Quando chegar a altura, caso com ela." E assim fez: tinha Maria Inácia 18 anos quando, menina e moça, a levaram de casa de pai para casa do marido.

No Vale do Bispo, a herdade do meu bisavô, esperava-a a minha trisavó Rosalina, uma sogra dura de roer. Enquanto foi viva, ordenou que ela e o filho comiam em casa e que a nora comia nas mesa dos criados. Convém explicar aos leitores menos habituados a estas conversas que, quando se fala em criados numa herdade do Baixo-Alentejo, não nos referimos a pessoal empertigado de libré, mas sim a criados de lavoura, lavadeiras e ganhões ocasionais.

Nunca se percebeu bem esta atitude da minha trisavó. Nem a aceitação passiva do meu bisavô, homem afável, estimado, sério. Meandros desta história que se perderam nas voltas dos tempos.

Penso que ela terá morrido uns 5 anos depois do casamento do filho. A minha avó ainda não era nascida, mas Maria Inácia já tinha tido um filho que havia de morrer moço, com 18 anos.

Eu penso muitas vezes naqueles 5 anos na mesa dos criados. Que relação seria aquela? Como olhariam eles para a rapariga que a patroa sentava à mesa deles mas que, mais ano, menos ano, seria, por sua vez, a patroa? Que pensariam eles da atitude do marido? Será que pensavam ou apenas esperavam a passagem do tempo? E ela? O que sentiria? Que coisas lhe terão ensinado, que segredos lhe terão contado ou escondido? Essa época permanecerá sempre um mistério e um fascínio para mim.

Pois a minha trisavó Rosalina morreu, a minha bisavó Maria Inácia tomou o seu lugar na mesa de dentro. Já a minha a avó tinha 10 anos quando o pai morreu. Eu ouvi-a tantas vezes contar esta história que quase consigo ver os detalhes.

Logo no dia a seguir ao do enterro, apareceu lá em casa o irmão do meu bisavô. Devia ser Setembro, porque a conversa teve lugar cá fora, no alpendre sobre o qual havia videiras cujos cachos, dizia a minha avó, começavam a amadurar.

Vinha o cunhado dizer-lhe que, visto que não havia "papéis", no que respeitava ao que ela tinha herdado por morte do pai, havia de se ver, mas aquilo que ela pensava ter acabado de herdar do marido, que tirasse daí a ideia. Era tudo dele.

Maria Inácia respondeu: "Fiquei ciente, meu cunhado. Vossemecê é servido de alguma coisa?". Como ele não era servido de nada, ela entrou em casa. Pouco depois, mandou que lhe preparassem umas mudas de roupa e que lhe aparelhassem a égua para bem cedo. Ia, de madrugada, para Odemira.

Odemira fica a uns 50km do vale do Bispo. Os meus primos dizem que terá lá chegado pelo fim da tarde. Aquela mulher só conhecia o caminho da casa onde nascera para a casa onde casara. Nunca fora a parte alguma. Sabia assinar o nome, mas do mundo não sabia mais nada. Uma onda de desassossego passava pela casa. No dia seguinte, enquanto lhe prendia uma espingarda na ilharga, um criado de lavoura ainda tentou : "Não vá, lavradora, sabe-se lá o que vossemecê pode encontrar." Mas ela fez-se ao caminho.

Devem ter passado mais de quinze dias sem notícias. Como eu gostava de saber as voltas que deu, quem procurou, como encontrou as pessoas certas, como se moveu num mundo e numa linguagem que nem sabia existirem.

A minha avó dizia que, quando ela chegou e saltou da égua, o preto da viuvez vinha tão coberto de poeira que parecia cinzento. Bebeu um copo de água, mandou chamar o cunhado e foi esperá-lo debaixo do alpendre.

Quando ele chegou, Maria Inácia disse: "Olhe, meu cunhado, não sei explicar bem estas coisas, mas estes papéis que aqui estão não são os verdadeiros. Os verdadeiros estão bem guardados, mas estes valem tanto como os outros. Agora leia. Leia vossemecê, que lê melhor do que eu. E leia em voz alta."

E ele leu, enquanto dos quatro cantos da casa se juntava gente para ouvir. E lá se dizia que ela, Maria Inácia Rodrigues, que também assinava apenas Maria Inácia, era dona e legítima proprietária do Vale do Bispo, dos Fitos Grandes, da Terra Nova, da Fragura, das Caveiras Altas e do Serro do Olival. Quando ele acabou de ler e de engolir em seco, ela disse-lhe, na voz mansinha que me contaram que ela tinha: "E agora, meu cunhado, saia daqui e, quando passar por estes lados, passe lá bem longe do portão que cá em casa toda a gente atira bem." Levantou-se, virou-lhe as costas e entrou em casa.

De Maria Inácia estão vivas seis netas, cinco bisnetas e quatro trinetas. Somos completamente diferentes umas das outras. Há-as como eu : cruéis, tristes, violentas, amarguradas e generosas. Como a minha mãe: meigas, práticas, compassivas e implacáveis. Como a minha tia Lila: inteligentes, perspicazes, teimosas e determinadas. Não há duas iguais. Só uma coisa persiste em nós, como um ferrete no nosso código genético: um apuradíssimo instinto de defesa que dispara ao mínimo sinal de perigo.

E, como são engraçadas estas coisas, todas nós atiramos bem.

12 comentários:

estela disse...

excelente.

as palavras são excelentes ... e certas ... e cheias de janelinhas viradas para o passado através das quais se vislumbra o então. vejo a bisavó e o alpendre e as uvas.
mas também a memória é excelente e fico com pena de saber tão pouco sobre os dias da minha bisavó transmontana que ainda recordo e que por um engano da vida tinha nascido nos estados unidos.

excelente, Ivone!

Nefertiti disse...

Gostei muito.Texto que fala de uma bela e inteligente mulher.

Obrigada pela partilha.

Micha disse...

Texto lindissimo! Viajei para lugares e epoca que desconheco e adorei conhecer um pouquinho estas mulheres maravilhosas. Parabens!

Ivone Costa disse...

Sabe, Estela, ao contrário do Zé Ricardo que só quer saber da Genealogia da Moral, eu interesso-me muito por genealogia, sobretudo no que respeita à da minha família. Obviamente, que junto a certidões e assentos de nascimento, a arquivos e conversatórias, vão surgindo estas episódios que, juntos peça a peça como um puzzle, nos dão a história da família. E também o lamento por permanerecerem zonas onde nunca conseguiremos entrar.

Obrigada, Nefertiti.

Micha, eu tive o privilégio de passar muito tempo em casa dos meus avós maternos. O meu avô, por razões que só ele sabia deixava-me, para aí por volta dos meus 6 anos, ficar sentadinha no chão da sala onde os homens se reuniam. Ouvi histórias de mortes, de águas, de adultérios,de terras, de brigas. Um mundo. Desaparecido. Desaparecido realmente, porque dizer que as coisas permanecem vivas só porque estão na nossa memória é uma bela ilusão, mas não passa disso.

Ivone

Anónimo disse...

Que história incrível. Estou já a ver uma biografia, uma historieta romanceada, qualquer coisa. Não consigo olhar para uma "massa" assim sem imaginar logo a obra que ela pede. Vá lá Ivone, escreve. Oferece-se editor.
JCL

Ivone Costa disse...

Anónimo JCL, tu ganha mas é juízo! Leste o VPV na LER deste mês? Diz ele que nunca seria um escritor porque para ser um escritor é preciso ter uma voz e ele apenas tem uma vozinha.
Eu nem isso. Limito-me a emitir uns mumúrios, uns sussurros. E muito de vez em quando.

Ivone

Anónimo disse...

Claro que li o que diz Vasco na Ler. Mas o que diz Vasco não se escreve, a maior parte das vezes. Principalmente quando está no registo da vozinha que ele, na verdade, acha que não tem em qualquer circunstância. Falas em murmúrios. Pois. São belos os murmúrios do mundo. Inesperadamente claros os nossos sussurros, digo eu, que não percebo nada disto. Vá lá, Ivone, conta mais um bocadinho da história. Nuestro pequeño mundo também é feito de pequenas pedrinhas que fazem os caminhos. Não me chames maluco, que eu já sou. Anónimo JCL

António Ventura disse...

Não sei se algum dos factos é verdadeiro ou não, nem isso me interessa para nada.
Mas que é um belíssimo texto e uma história fabulosa, disso não tenho dúvidas!
Parabéns Ivone (desculpe-me o tratamento failiar, pois penso que não nos conhecemos)!
Vou publicá-la (com a devida vénia) no meu blogue e na minha página do Face book.
Saudações cordiais e vou estar mais atento às suas publicações.
António Ventura

Ivone Costa disse...

Caro António Ventura

Creio que exagera nos seus encómios. Mas, obrigada, em todo o caso.
A história é mais que verdadeira, repetida ao pormenor durante férias e serões.
Ainda hoje a expressão:"Cá em casa toda a gente atira bem." é proverbial na minha família.

Ivone

Xantipa disse...

Cara Ivone,

Muitos parabéns!
Adorei o texto!
Chame-lhe sussurro, murmúrio ou o que entender, mas que isto é bom, é, e daria um excelente romance!
Um abraço
da Adriana

Ivone Costa disse...

Caríssima Adriana, então a menina anda para aí a ensinar coisas como o "nada em excesso" e depois não as põe em prática?

Obrigada

Ivone

Anónimo disse...

Passei por acaso neste blog.
Sou uma alentejana de Odemira, que pôde relembrar neste texto, as "histórias" contadas pela a avó, aos mais pequenos, em redor da lareira, nas longas e frias noites de Inverno.
Vou copiar este texto, e entregá-lo a um amigo, já idoso, que vive na zona onde morava na altura a sua bisavó, os tais 50 km de Odemira.
Sei, que ele irá gostar de a ler.
De facto, a Ivone escreve muito bem, este texto poderia ser a base para um excelente livro, sem dúvida.