04 julho, 2009

LINGUAGEM RUPESTRE


Uma má estruturação gramatical tem, forçosamente, implicações no modo como pensamos e nos relacionamos com a realidade. Uma criança de 3 anos que diz “Eu amanhã comi um chocolate”, não pode ter uma percepção clara e objectiva do mundo assim como das suas acções nesse mundo. Confunde o passado com o futuro e uma pessoa que confunde o passado com o futuro não pode ter uma relação normal com a realidade.

Ora, eu estou convencido de que uma das razões pelas quais Portugal continua a revelar enormes dificuldades no plano do desenvolvimento, passa por um défice de estruturação gramatical que condiciona a relação dos portugueses com o real.

Hoje, vou dedicar-me ao problemático caso do comer e da comida. É comum, em Portugal, um filho perguntar à mãe: “O que é hoje o comer?”. Ou um aluno dizer na escola:” O comer não prestava para nada”. Isto é grave. E é grave pois confunde o verbo (acção) com um substantivo, a comida. A comida é um “objecto”, tal como uma mesa ou uma ventoinha. A comida come-se. E come-se como? Através do acto de comer, um acto do mesmo que serão actos correr, saltar, nadar ou governar. Como é óbvio, pode-se comer mas não se pode comer o acto de comer.

Perguntar: “O que é o comer?” equivale a perguntar: “Quem ganhou o correr dos 100 metros barreiras?” Dizer: “o comer não presta” é o mesmo que dizer: “o governar de José Sócrates tem ministros como Lurdes Rodrigues, Alberto Costa, Rui Pereira ou Manuel Pinho”. Porém, neste caso, a confusão sempre seria mais pertinente. Pois enquanto no caso da comida, o acto de comer, na sua essência abstracta, presta (em abstracto, comer é bom, comer mata a fome), dizer que o governo não presta equivale a dizer que o acto de governar também não presta. Vai dar ao mesmo.

Eu tenho uma teoria que pode explicar esta confusão entre o comer e a comida. Como em Portugal se passava muita fome, a comida (substantivo) era uma coisa demasiado abstracta, qualquer coisa que não fazia parte da experiência dos portugueses. Ora, substituir a comida pelo comer, fosse a pensar ou a falar, teria assim qualquer coisa de mágico.

Um pouco como as pinturas rupestres. O homem primitivo pintava os animais nas paredes das cavernas para criar a ilusão de que os poderia caçar mais facilmente. Confundia, pois, a abstracção do desenho com o concreto da acção.
O português, neste sentido, revela claros vestígios deste fenómeno primitivo. Ao dizerem: “o que é o comer?” os portugueses transformavam a simples existência da comida (inacessível, inexistente) no acto concreto de comer. Ou seja, pensar no “comer” (comida), iria criar a ilusão de que se iria comer (acto).

Seria interessante saber como falava o menino do Lapedo. O nosso antepassado lusitano que mistura o paleolítico e o neolítico.
Jornal Torrejano, 3 de Julho de 2009

6 comentários:

Margarida Graça disse...

Mais um texto divinal!
Quem escreve assim, para além de não ser gago, seguramente é pessoa de bem. E assim me redimo, se é que algum pecado ficou no ar. A esta hora já estará no fundo do mar e não polui.

Quanto à linguagem rupestre, muito há por dizer e estudar nos mananciais da arte de bem falar...

A ser assim, esse “concretismo”, de comida transformada em acontecimento gastronómico num infinito platónico, já há muito que é norma na terminologia gramatical e, quiçá, assim se possa explicar a proverbial sabedoria popular, a que verdadeiramente experiencia esse idílio de comida que, de tão surrealisticamente saboreada, acaba por conduzir a um universo escatológico, onde apenas uma nau aguarda, a da “infernal comarca”, se não vejamos:
Vem-me o comer à boca
Andar a comer muito queijo
O bom comer faz mau dormir
Grande prazer, não escusa o comer
A caçar e a comer, não te fies no prazer
Trabalha o feio para o bonito comer
A hora de comer é a da fome
A boca grande não é que come, é a vontade
O comer e o coçar o caso é começar
Os olhos não comem sopas
Os olhos também comem
Comer sem pão é comer de lambão
Comer devagar faz a vida durar

Bons e reais sabores

Helena disse...

Grande reflexão! Excelente.

Fred disse...

E, então como dizer correctamente isto: "eu tenho de ir fazer" ou será que é "eu tenho que ir fazer"?

Pois, qual destas frases implica obrigação, teoricamente, será a que tem o "que", mas então o "de" já implica que é opcional fazer ou não, como é? Não se faz ou faz-se?

Um abraço.

José Ricardo Costa disse...

De um ponto de vista semântico, pelo modo como apresenta a questão, não há qualquer diferença. Noutros contextos, porém, essa poderá existir. Por exemplo, "Eu tenho que fazer" e não "Eu tenho de fazer"

JR

Fred disse...

Obrigado pela resposta.

addiragram disse...

Achei particularmente interessante e plausível a sua teoria.Vou dizer porquê. Do ponto de vista do desenvolvimento psicológico do ser humano o acesso ao simbólico é um passo de gigante a que nem todos acedem. A formação do pensamento simbólico, onde se pode representar o objecto na sua ausência, só acontece quando a criança tem capacidades suficientes para se sentir separada do outro e se consegue ver como ser diferenciado. Aí pode representar o que não tem. Antes disso, não existe representação mental. As crianças autistas quando começam a desenhar, esse desenho é como se fosse a coisa em si. Desenhar um buraco é cair num buraco. Aquilo que foi designado por equação simbólica. Ora muitos de nós não tendo ficado nesse estadio tão elementar ficaram ainda demasiado próximos do concreto. É o que mostra esta sua hipótese, confirmada de muitas maneiras, quando se trabalha com crianças, por exemplo.
Naturalmente na história do homem a mesma evolução aconteceu, o que é testemunhado pela evolução da escrita, por exemplo. Assim a estruturação gramatical reflecte também uma organização psíquica.Neste caso a confusão do passado com o futuro decorre de uma incompleta organização temporal em que a criança ainda não acedeu ao conceito de finitude, dominado ainda por um pensamento omnipotente onde tudo parece ser possível.