08 julho, 2009

IT WOULD CORRUPT THE SOUL OF ANY MAN



Revi, há dias, umas das minhas cenas preferidas de Elizabeth( 1998, de Shekhar Kapur). Descoberta a conjura de Lord Dudley, o amante de toda uma vida, mortos ou presos os implicados, Isabel vai ao encontro dele na companhia de Sir Francis Walsingham, o conselheiro. Não é uma sala sumptuosa do palácio, é um aposento despojado. Isabel traja de cinzento, um cinzento glaciar, e traz poucas jóias. Poder-se-ia escrever todo um tratado sobre as cores escolhidas pelas mulheres. Ela não vem de preto distante nem de vermelho arrogante, tão-pouco veste o amarelo dos dias felizes. Traz o cinzento da indiferença.

À medida que o diálogo avança, aumentam os close-up sobre o rosto dela:
E é um diálogo fabuloso:

Elizabeth: They are all gone to the Tower. Your friends. Tell me, how should I serve thee, Robert?
Dudley: My course is run.

Isabel não resiste à pergunta a que mulher alguma resistiria:

Elizabeth: Just tell me why.

Lord Robert Dudley é já um homem no grau máximo do desespero:

Dudley: Why? Madam, is it not plain enough to you? It is no easy thing to be loved by the Queen. It would corrupt the soul of any man. Now, for God's sake, kill me.

E, perante o espanto de Walsingham que lhe ensinara outrora :Madam, if I may. A prince should never flinch from being blamed for acts of ruthlessness which are necessary for safe guarding the state and their own person. You must take these things so much to heart that you do not fear to strike. Even the very nearest that you have if they be implicated,
Isabel afirma:

Elizabeth: No... I think rather to let you live.

Walsingham inquieta-se:

Walsingham: Madam, that is not wise. Lord Robert has committed treason. He must be made example of.

Não é quando recebe o anel do pai, não é quando veste os vestidos de seda francesa recamados de pérolas, não é quando se senta na sala do trono, é naquele momento, com a resposta que se segue, com a resposta solitária, dolorosa, arrojada e majestática que ela se torna A Rainha.

Elizabeth: And I will make an example of him. He shall be kept alive to always remind me of how close I came to danger.

Esqueceria Elizabeth o Maquiavel lido no lusco-fusco das tardes inglesas, esqueceria ela o critério segundo o qual a racionalidade da acção se deve sobrepor à conduta moral e individual do príncipe? E Lord Dudley? Pensaria que se, a sorte arbitra metade das acções de um homem, também permite governar a outra metade?

Nunca o saberemos.


Post sccriptum: em busca de um fotograma do filme encontrei esta digitalização de Alexia Sinclair. Acho-a de alguma ingenuidade iconográfica, mas não me desagrada de todo. Sugiro a consulta do link (se ele estiver correcto). Há lá uma Isabella of Spain- The Cactholic que também é interessante.

1 comentário:

Alice N. disse...

Cara Ivone,

Não tem que ver com o texto, mas queria dizer-lhe que fiquei muito contente por ver plubicado na Visão o seu comentário acerca da entrevista de Miguel Sousa Tavares. Fiquei contente por ser a sua carta, mas sobretudo porque a Ivone exprimiu, com a eloquência a que já nos habituou e de forma rigorosa, a verdade que MST queria escamotear. Obrigada.

Alice