31 julho, 2009

IC1

No passado fim-de-semana fui de Torres Novas para Faro sempre pela auto-estrada. Na volta, porém, decidi fazer grande parte do percurso pelo IC1.

Foi uma sensação muito estranha. Em pleno Verão, uma estrada quase vazia. Um carro aqui, outro carro ali e pouco mais. Ora, em tempos, o IC1 era a grande estrada rumo ao Algarve. Lembro-me bem das horas que passei engarrafado tanto para cima como para baixo.

Mais estranho ainda, foi a minha tendência para animizar a estrada. Como se esta fosse um cão. Tendo mais, ou menos valor consoante o número de pessoas que a procuram e desejam. Há anos era uma estrada amada. Todos a queriam, todos a procuravam. Pensar no IC1 era pensar em férias, praia, sol, noites quentes de verão. Hoje, pelo contrário, substituída pela auto-estrada, já ninguém a quer, já ninguém a procura. Como um cão rafeiro que se deitou fora porque, entretanto, se comprou um cão de raça graças ao qual fazemos um figurão quando passeamos na rua.

Provavelmente estarei a enlouquecer. Mas notei, enquanto percorria serenamente o asfalto vazio do IC1, que aquela estrada sentiu uma enorme gratidão por me ter ligado a ela. Não ouvi um “obrigada” porque as estradas não falam. Mas tenho a certeza de que, se falassem, teria ouvido.

2 comentários:

Anónimo disse...

E eu recordo uma ida para o Algarve, contigo, Zé, num mini, com tachos e panelas e cobertores e sei lá o quê. Como era possível? Era.
João Carlos Lopes

José Ricardo Costa disse...

Calma aí, calma aí. Na altura (1986)ainda nem sequer era o IP1. Era mesmo a velha estradinha das 8 ou 9 horas até lá chegar. Uma viagem épica ainda por cima, parcialmente, sem o tampão da gasolina. Ver o Algarve a aproximar-se era, naquele tempo, como nas Vinhas da Ira do Steinbeck, a chegada à Califórnia.
JR